Albino da Conceição

«Todo o cidadão tem de contribuir para a evolução dos países»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia ©Lília Figueiras

«Não dialogo com as minhas cores. Misturo-me com elas e fazemos borrões que se harmonizam nas telas. (...). Pinto-me nelas e sou o começo do traço. Sou a marca. O borrão. (...)». Albino da Conceição nasceu na capital angolana, Luanda. Estudou lá. Sempre gostou de desenhar. Mas gostava ainda mais de pintar. Porque a natureza não tem linhas, tem volumes. Até ao sétimo ano, as disciplinas favoritas eram as Artes Plásticas, a Educação Física e a Matemática. Sempre gostou de desporto – dois tios foram grandes futebolistas, em Portugal, no Vitória de Setúbal. Tanto o bichinho pelo desporto, como pelas artes, já lhe estavam incutidos no sangue. Do pai, extraiu o gosto por desenhar; da mãe, o lado empreendedor e o carácter forte. Durante anos, esteve ligado ao Ministério da Juventude e Desportos do seu país. E, mais recentemente, Albino expôs Reflexos, através das suas obras, na galeria Nuno Sacramento Arte Contemporânea, em Ílhavo, Portugal. 

«Nos anos 82/83, na nossa sociedade, ser alguém era ser Doutor: tinha de ser Médico, Engenheiro...»

Da infância, do que é que se lembra?

Primeiro: não gostava de ir à baixa de Luanda, porque fugia da estátua de D. Afonso Henriques. Desde pequeno, aquilo era um terror para mim. Lembro-me também do meu primeiro dia de aulas: entrei para a sala de aula, mas, quando entrou a professora, eu fugi.

Porquê?

Porque a professora era branca. Grande e branca. Fui para casa, e a minha mãe perguntou-me: «Mas tu já estás em casa?!». E eu não podia dizer-lhe que tinha fugido da escola porque a professora era branca. Então disse-lhe: «Perdi a sala». A minha mãe não disse nada. No dia seguinte, fui para a escola, entraram os colegas e, de seguida, a professora, e a minha reação foi de fuga, olhando de imediato para a porta, mas estava lá a minha mãe. Ela sabia como eu era, não aceitava que nenhum branco me tocasse, portanto, a escola, de facto, educou-me, nesse aspeto.

Até porque agora tem muitos amigos...

Tenho amigos, independentemente da cor.

Entretanto cresceu. Escolheu formar-se em desporto.

Não, não escolhi.

Não?

Não. Na altura, éramos um país socialista, de maneira que havia planificação dos alimentos, das vendas e, também, da formação. Quando chegávamos à oitava classe (8.º ano) preenchíamos uns formulários, porque havia a planificação de formação de quadro – era um processo que se chamava ‘encaminhamento’. Terminei com médias muito boas a matemática e educação física – basicamente as minha disciplinas de eleição. No formulário, tínhamos de colocar três opções. A 1.ª era Construção Civil, a 2.ª era Matemática e a 3.ª era Educação Física. Geralmente digo: «quem tratou do meu processo virou-o ao contrário». Calhei no desporto, com muita relutância, ao princípio, porque nos anos 82/83, na nossa sociedade, ser alguém era ser Doutor: tinha de ser Médico, Engenheiro. Não se dava valor a alguém formado em Educação Física. Incrivelmente, o meu pai, que já tinha um pensamento avançado, fez tudo para eu não sair da formação do desporto. Apoiou-me.

Depois, exerceu? E também praticou desportos?

Quando acabei a formação entrei como estagiário no Instituto de Educação Física e dei aulas – era assistente do professor de natação. A primeira modalidade que joguei foi basquetebol; depois, em 1979, dá-se o falecimento do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto. Nessa altura, houve um período muito longo em que não houve competições. Era luto nacional, salvo erro. Quando reabriram as competições, já não joguei basquete, passei para o andebol. O andebol joguei mais tempo, uns 12 anos.

Foi para a Bulgária?

Fui para a Bulgária cinco anos. Saí de lá em 1990. Uma experiência dura, mas agradável. A primeira dureza teve que ver com a cultura.

Era totalmente diferente da sua...

Totalmente diferente. A cultura e a língua.  Não tem nada que ver com a nossa. A letra P equivale à letra R, a letra M equivale ao T, a letra H é I, e, portanto, uma complicação tremenda. Mesmo a imagem, do ponto de vista gestual: o ‘sim’ é como gesticulamos para o ‘não’, e o ‘não’ é que é o ‘sim’, e até conseguir ultrapassar isso...

Voltou a Angola depois?

Voltei a Angola em 1990. Cheguei a Luanda, no dia 8 de Novembro, penso.

Entrou para o Ministério da Juventude e Desportos?

Entrei no dia 3 de Janeiro de 1991.

Como é que foi essa experiência?

Até Julho desse ano fui disputado entre o Ministério da Juventude e Desportos e o Ministério da Educação. O concelho de ministros é que tomou a decisão. «Se é formado em desporto fica em desporto». Acho que fui o segundo quadro formado, especialista em desporto, a entrar para o cargo. Estava muito bem preparado. A formação que tive foi muito boa. Tanto que fiz a apresentação de trabalhos em 91, e, em 92, eu próprio pedi ao ministro para rever os trabalhos, porque estavam academicamente muito avançados para a compreensão do sistema desportivo. O ministro olhou para mim e disse: «Isso é um bom princípio, não são os outros que estão a pedir, tu é que fizeste os trabalhos, apresentaste-os, defendeste-os, e tu é que estás a pedir». O que eu estava a sentir era que os outros não entendiam. Então, quis reformular e retirar a carga científica excessiva.

Simplificou...

Simplifiquei, é isso. Daí para a frente passei a ser compreendido, acho até que foi esse facto que acabou por mudar a minha relação com o sistema desportivo angolano.

Esteve lá quantos anos?

Estive 27 anos no Ministério da Juventude e Desportos.


\\ Fotografia ©Lília Figueiras


\\ Fotografia ©Lília Figueiras


\\ Fotografia ©Lília Figueiras

Em Angola há bons desportistas. O que falta para serem dos melhores do mundo?

A economia mundial tem alguns extremos. E a sul do Equador, de uma maneira global, todo o sistema desportivo é suportado pelos Estados, tirando a Austrália. Isto leva a que as variações da economia mundial, ao afetarem as economias desses países, tenham imediatamente um grande reflexo no suporte da matéria desportiva. Ao nível da Europa e ao nível dos Estados Unidos, o desporto consegue gerar receitas que permitem ter vida própria. Então julga-se que, ao construir-se um estádio em Angola, ou no Congo, esse estádio pode também viver sozinho, mas não é possível, porque mesmo ao nível da Europa a atividade desportiva em si não dá mais do que 20% das verbas para a manutenção.

Tudo é uma questão de tempo?

Hoje, quando me perguntam se tenho tempo, digo que não tenho tempo, porque quando nasci o tempo já existia. É tudo uma questão de planificação. Antigamente, não conseguia incluir nas minhas atividades diárias fazer a arte. Mas continuava a ir a exposições, a assistir ópera, espetáculos musicais... E, no meu regresso (a Angola), ia fazendo desenhos a lápis. Um dos meus filhos conseguiu fazer o percurso que eu queria fazer – Construção Civil. Quando tinha dúvidas, vinha ter comigo e dizia-me: «Papá, não entendi aqui isto» e eu explicava-lhe. Passado uns tempos, disse-me: «Mas o papá sabe desenhar. Porque é que não faz uns desenhos para pôr aqui em casa?!» Então fiz os primeiros desenhos e emolduramo-los. Desde então, acumulei vários desenhos.

Quando é que foi a primeira exposição?

Em 2015, na galeria BAI, em Angola. Fiz a primeira exposição individual, mas o primeiro quadro que expus, o primeiro desenho, vamos assim dizer, estava a estudar no 6.º ano. É engraçado que, hoje, ainda consigo recordar momentos do quadro. Transferi para o quadro o que era a realidade da altura: um blindado; alguns cadáveres, fruto da guerra; uma floresta e, no cano do blindado, coloquei um cano a sair, como que a transmitir o disparo de uma bala.

E esta exposição, na galeria Nuno Sacramento, em Ílhavo, o que retrata?

É uma linha africana. A tendência para o impressionismo, não é abstrato. É a realidade, até à descontinuidade do traço, no sentido de ter a participação de quem vê. Se reparar nos rostos que estão ali, não preencho a totalidade deles, mas, ainda assim, ninguém vê o rosto transparente.

Aceitou o desafio do Nuno Sacramento em fevereiro...

Já devia ter uns cinco ou seis quadros. Aceitei o desafio. Em abril, disse-lhe: «Nuno, tenho os quadros».

Como é que idealiza a pintura, é através de fotografias?

Vejo fotografias e faço a sua interpretação. Toda a linha que fiz, até 2015, era, de facto, realismo. Entretanto, entrei para o modernismo. Comecei a fazer interpretação. A fotografia tem as suas cores, mas eu procuro pôr outras cores.

A arte ocupa-lhe o tempo?

Para já é o que me ocupa o tempo.

Agora que não está ligado à política.

Foram 18 anos. Vale mesmo a pena a gente esquecer-se, porque acho que tem de haver oportunidades para todos, outras ideias… Acho que todo o cidadão tem de contribuir para a evolução dos países.

E o Albino contribuiu no seu momento...

Servi o país.  Ainda sirvo, no sentido de que tenho de ajudar Angola. E uma forma de ajudar, de divulgar, é através da arte.

E até onde vai o Albino?

Até onde for possível. A minha perspetiva, nesta altura, é pintar mesmo. Transmitir e dar a conhecer este meu lado que estava desconhecido para a grande maioria das pessoas. Nas artes plásticas, a maioria dos autores só depois de morta é que se tornou reconhecida. Eu digo: «Não quero morrer cedo».


\\ Fotografia ©PMC


\\ Fotografia ©Lília Figueiras


\\ Fotografia ©Lília Figueiras

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