Sónia Patacão

«Sou facilitadora em criar sinergias»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia ©PMC

«Cidadã do Mundo». Assim se descreve Sónia Patacão, Presidente do IFL (International Friendship League) – organização que promove a amizade em mais de 50 países –, e, também, autora e fundadora do «Mais Networking» – um canal de televisão online, que em breve será apresentado. Nasceu em Portugal, Lisboa, mas as raízes africanas correm-lhe nas veias: Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. E, não bastassem essas, tem, ainda, origens inglesas (Inglaterra). Trabalhou em rádio, foi repórter e pivô na RTP África. Os seus tempos livres gosta de passá-los consigo mesma, porque «uma das coisas que fazemos pouco é dar-nos tempo a nós mesmos», assim alude Sónia. É certo que antes de darmos tempo aos outros o devemos dar a nós. Por isso, a jovem empreendedora também adora ler, fotografar, música e... tem, ainda, um hobbie: a dança, porque é uma das coisas que  a liberta. Sónia quer, ainda, aprender duas coisas: valsa e dança do ventre. E, claro, «desfrutar mais da vida».

«O projeto 'Mais Networking' ? é um canal de televisão online, que vai ser apresentado, em princípio, no dia 25 de março»

Fale-nos das suas raízes.

Há uma coisa que poucos conhecem. A minha família está ligada à parte mais nobre. Muita gente não me conhece com este nome, mas o meu último nome, na verdade, não é Patacão. Patacão é também de família, ligada à parte dos mármores, mas o meu último nome é Queita. Queita vem de um grande imperador, que é um dos meus antepassados, chamado Sundiata Queita, que foi um imperador do Mali e que, entre outras coisas, foi responsável pelo estabelecimento de uma carta que visava a abolição da escravatura e a defesa dos direitos humanos, daí a minha história estar ligada a estes grandes feitos. Como costumo dizer: «princesa em casa e Sónia na rua» (risos).

É o outro lado da Sónia…

Sim. Mostrar um lado africano com história. Não apenas história de guerras ou conflitos, mas também de grandes feitos, de grandes homens, que realmente devem ser recordados. Todos nós, africanos, deveríamos ter orgulho deste império e desta história que, no fundo, faz parte de todos nós.

É uma mistura de saberes…

Costumo dizer que a minha educação é nórdica, mais ligada ao Norte da Europa. Nasci em Portugal, vivi no Norte, onde tenho família, Paços de Ferreira. Estudei em Florença, Itália. Formei-me em Estudos Europeus, com especialização em Estudo Intercultural. Entretanto, comecei a estar ligada à parte do associativismo, sendo, então, Presidente de um grupo internacional, o IFL – International Friendship League. É uma organização a nível mundial. Estamos em cerca de 50 países, com o principal objetivo de promover uma coisa de que às vezes nos esquecemos, por ser tão básica no seu sentido lato, mas tão importante nas nossas vidas, que é a amizade. Acreditamos que o princípio para qualquer coisa, seja para um negócio, seja para conhecermos novas pessoas, para socializarmos, para nos apresentarmos ao mundo social, ao público, é a amizade.

É o fundamental…

Exatamente. E é a chave para o sucesso. Hoje, disponibilizo o meu conhecimento para quem chega à minha organização e busca essa informação, ligada, por exemplo, à área da comunicação. Ajudo esse jovem, ou mesmo adulto, a conseguir algo dentro daquilo que é a minha rede de contactos ou conhecimento. E, amanhã, esse jovem fica também incumbido de, dentro da sua área, poder passar essa mensagem e essa ajuda.

Como é que surgiu o convite para presidente da IFL?

Estou na IFL há mais de dez anos. Quando estava na faculdade, sempre estive muito ligada à área associativa. Lembro-me de fazer a passagem de textos para braile, para estudantes que não tinham a possibilidade de ver os textos que os professores passavam, e começou a surgir a necessidade de fazer algo mais dinâmico… Numa pesquisa, surge-me a IFL. Entrei, primeiro, mais ligada à parte das Relações Públicas e da Comunicação e, depois, surge o convite para presidir o grupo em Portugal. Temos estado a trabalhar a parte, principalmente, ligada às ex-colónias, porque a IFL nasce em Inglaterra, há cerca de 88 anos, com o objetivo deste intercâmbio de conhecimento com o outro.

E como é que entra aí África?

A IFL nasce por ocasião da segunda guerra mundial, como uma forma de aproximação dos jovens. Depois desse período, trabalhamos muito com as crianças e a sua integração na sociedade. E a Inglaterra vê o contacto e a comunicação com as suas ex-colónias, em África, como um foco que é importante manter. Decidimos continuar esse trabalho nestes países, porque já havia uma história, já havia um contacto… Havia também um trabalho que, dentro da ONU, já estávamos a desenvolver e, por isso, fazia sentido também ele ser prolongado, tanto que há cerca de quatro anos foi aberta uma escola no Uganda também ligada à IFL. Estamos em quase todos os continentes. Na China, por exemplo, temos já uma representante da IFL, pois a Ásia é outro continente onde achamos interessante introduzir a IFL.

Essencialmente, lidam mais com os jovens?

Sim, o nosso foco é mais os jovens, porque também acreditamos que são eles que têm, numa primeira fase de vida, mais barreiras e desafios para ultrapassar.

«Não podemos pensar nos negócios apenas com o fim monetário»

E como tem sido presidir, em Portugal, a IFL?

Sou presidente há cerca de cinco anos. Dia 27 deste mês (janeiro), completo mais um mandato e, mais uma vez, querem que eu continue…

Reconhecem o trabalho que a Sónia tem desenvolvido…

Sim. Posso dizer que sou a única mulher, dentro do grupo, a presidir, e a mais nova! E sinto-me orgulhosa por isso, e por ter essa responsabilidade.

E como foi o seu percurso profissional?   

Fui repórter e pivô de um programa de televisão na RTP África. Comecei a fazer reportagens de exterior, o que me deu uma abrangência muito grande do contacto com a cultura africana. Depois tive o convite para apresentar um programa, de segunda a sexta, em horário nobre, que era sobre a temática: a cultura africana. Foi fantástico.

Depois, decidi que, apesar de a televisão me dar uma visibilidade e uma projeção muito grande (também fiz rádio), tinha de criar algo que tivesse a minha identidade. Então nasce o projeto «Mais Networking» – é um canal de televisão online, que vai ser apresentado, em princípio, no dia 25 de março. Vai falar de negócios e de ideias de negócios. O nosso público-alvo vão ser empresários, start-ups, criativos, pessoas com ideias, ligadas a três continentes. Queremos criar uma linha condutora, começando pela Língua Portuguesa, Portugal a apresentar a Europa, África com os países de Língua Portuguesa, e a Ásia com Macau. Vamos fazer entrevistas a empresários, a jovens, a criativos, que tenham ideias e as queiram comunicar. No mercado não existe nada assim ligado aos negócios. Estamos a falar de uma Lisboa, de um Porto, de um Portugal com uma nova dinâmica a nível empresarial.

Para quando o lançamento?

Em princípio será no final de maio, dia 31, é a data prevista para a abertura do canal.

A ideia partiu da Sónia, mas tem uma equipa por detrás do projeto?

Sim, sim. Em Portugal temos seis pessoas. Vão ser criadas rubricas com temas específicos, uma delas vai ser «Como falar em público», outra vai ser ligada ao «Direito Internacional», outra ao «Coaching Empresarial»… Como trabalho com algumas embaixadas, também convidamos alguns embaixadores a falarem sobre o que é que os seus países têm a oferecer… No fundo, trata-se de encurtarmos distâncias.

De onde vem esse lado empreendedor da Sónia?

Ele sempre existiu, porque quando estamos ligados à parte associativa temos de ser empreendedores por natureza. Uma associação significa isso mesmo: «criarmos ferramentas para suprimir necessidades». E dessa dinâmica acaba por vir esse espírito. Não gosto muito de me definir como empresária. Sou empresária, efetivamente, porque mexo com negócios, mas principalmente sou «facilitadora de criar sinergias». Mais do que criar negócios, potencializo negócios, porque criar é fácil. E é isto que o «Mais Networking» quer fazer.

A Sónia também está muito ligada à área social. Porquê?

Dei uma palestra, há uns dois anos, sobre a Paz e sobre o que as nossas sociedades defendem. Por norma, os slogans a que estamos habituados são: «Vais tirar este curso e vais ser rico», «vais ter um estatuto social», mas não há nenhum curso que tenha a coragem de dizer: «Vais tirar este curso e vais ajudar a tua sociedade, vais contribuir para o meio onde estás inserido». Isto é uma grande lacuna da nossa sociedade. Se estiver inserida numa sociedade saudável, automaticamente irei sentir-me saudável. Por isso, a parte social e a parte da responsabilidade social, que também vão estar presentes no «Mais Networking», são fundamentais. Não podemos pensar nos negócios apenas com o fim monetário. Quando saímos com uma ideia cá para fora, ela tem de acrescentar valor a um todo, não apenas a um particular.

É fazendo o ‘bem’ que o sucesso é garantido?

Fazendo o bem e, sobretudo, estando bem nesses momentos. Se nós estivermos bem com nós mesmos, estamos bem com o mundo. E, realmente, o nosso tempo é muito mais prazeroso. A Terra está sempre a mover-se… É aquilo que faz as coisas terem vida, porque se estivermos bem, movemo-nos e movemos os outros.

No futuro, o que é que podemos esperar de si?

Alguém feliz (risos). Hoje sou eu que estou aqui a falar convosco, mas amanhã certamente irá aparecer outro jovem com outras ideias… acrescentar, se calhar, mais valor àquilo que já faço, e espero que assim seja. Aquilo que fica, de verdade, é a Sónia, a amiga, a Sónia, a filha, a Sónia, a mulher… a Sónia que ri, que fica às vezes um pouco chateada, mas que, de alguma forma, trouxe algum sentido para alguma vida.  O Homem torna-se imortal, efetivamente, quando cria ligações e não quando constrói apenas uma casa, que a qualquer momento pode ser destruída.

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