Ricardo Viegas de Abreu

«Sou um técnico e não um político»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Photo Atelier ©Walter Fernandes

Gosta de fazer coisas! «Coisas que nos são verdadeiramente importantes», destaca Ricardo, com a firmeza dos seus valores de vida. Este homem, dito «reservado» e «sem medo de errar», tem na família o centro das suas prioridades, o seu porto de abrigo. Com os amigos gosta de partilhar. Tem vontade de caminhar e «fazer coisas novas e interessantes». Que coisas?! Vamos descobrir no teor desta entrevista. Ricardo Viegas de Abreu concluiu a licenciatura, em Economia, pela Universidade Lusíada de Lisboa, Portugal. Não olhando para trás, embarca, de imediato, na aventura que o conduziu até Inglaterra, onde se tornou Mestre, MBA ? Master in Business Administration, pela University of Bath, com a defesa da tese «As oportunidades do sector petrolífero na África Subsariana». Mas, em vez de enveredar pelo sector petrolífero, Ricardo optou por incorporar-se na equipa que viu o primeiro banco privado angolano nascer, o atual BAI - Banco Angolano de Investimentos. Estamos no ano de 1997. Passados dez anos saiu. Foi cofundador de um outro banco, BNI ? Banco de Negócios Internacional.  Em 2008 passou a exercer funções no sector público. Um ano depois, foi nomeado Vice-governador do Banco Nacional de Angola. Sai em 2015, passa a lecionar cursos de pós-graduação na Universidade Católica do Porto e no MBA Atlântico. E, desde então, quer continuar a fazer coisas!

O orçamento de estado angolano para 2015 foi fortemente prejudicado pela queda do preço do crude nos mercados internacionais. De que forma Angola pode minimizar os prejuízos num futuro breve?

A queda dos preços do petróleo, que iniciou no terceiro trimestre de 2014, provocou mais uma vez desafios ao quadro macroeconómico nacional. Embora haja quem tenha pensado num carácter conjuntural e passageiro, está a provar-se mais longo e mais estrutural, principalmente para economias cuja dependência deste recurso natural é expressiva. Minimizar os prejuízos pressupõe que, por via de medidas de política macroeconómicas selectivas e calibradas, combinadas com medidas de ajustamento estrutural, se procure evitar, por um lado, que o quadro de estabilidade macroeconómica seja demasiadamente afectado e, por outro, preparar uma nova fase de impulso da economia. Devendo-se aproveitar da melhor forma o momento menos positivo para se preparar a economia nacional, e o país para um novo ciclo de crescimento, mais prosperidade e sustentabilidade.

 

Esta crise veio demonstrar a urgência que Angola tem em encontrar formas de tornar a sua economia menos petro-dependente? 

O peso e dependência deste sector não é uma matéria nova, é uma matéria que nos preocupa a todos e não se alterará no curto prazo. O importante é conseguir-se garantir que a gestão criteriosa e eficaz dos recursos provenientes do maior sector da economia, por enquanto, permitam constituir as salvaguardas macroeconómicas necessárias para os momentos de crise, bem como apoiar o crescimento e modernização do sector não petrolífero. Devem-se criar condições para que a economia seja mais resiliente à volatilidade dos preços do petróleo, enquanto se estimula o esforço de crescimento do sector não petrolífero, privilegiando a autossuficiência alimentar e dinamização de um sector exportador que pelo menos consiga adicionar valor aos recursos de exportação, como por exemplo o mineral, florestal, pesqueiro, turismo e cultura.

 

É urgente reestruturar a economia angolana?

A economia angolana nos últimos 13 anos sofreu transformações muito significativas. Quer em termos de produto interno bruto e sua estrutura, como no rendimento per capita, despesa fiscal, impulsionando os projetos de investimento público e despesas decorrentes da extensão da administração pública a todo o território nacional. Todos estes ganhos, alicerçados no Plano de Reconstrução Nacional, garantiram inquestionáveis benefícios para a economia nacional e para os seus cidadãos. Mas, ainda assim, face à persistente vulnerabilidade da nossa economia, e desafios estruturais que ainda possuímos, precisamos de entrar num novo ciclo. Passa por termos um peso menor do Estado, mas mais qualidade na sua intervenção, e mais sector privado, seja nacional ou estrangeiro. É importante não esquecer que, ao longo destes anos, sectores onde se tinha 10 empresas, hoje têm 200; sectores com 1500 trabalhadores, hoje têm 5000; sectores com dezenas de milhares de clientes, hoje têm milhões.    

«Angola, um destino de investimento privilegiado para os próximos 15 anos»    

Mas isso impulsionou o aumento de gaps de conhecimento e capacidade?

O crescimento pode ter sido exponencial em alguns casos. Um dos principais desafios do país é, também, a formação de quadros e incorporação de competências, mesmo que vindas de outras geografias. O Estado lançou, e bem, o Plano Nacional de Formação de Quadros (PNFQ), respondendo a esse desafio, mas o sector privado deve e pode também fazer mais no capítulo da formação e a capacitação dos quadros. O sistema de ensino deve perspetivar as necessidades de conhecimento dos quadros do amanhã. Estudos recentes apontam para que, em 2050, 56% da população mundial com idade inferior a 25 anos viverá em África.  

 

Muitos investidores estrangeiros estão a enfrentar dificuldades e a equacionar resfriar o investimento em Angola?

Angola continua a ser um país de grandes oportunidades. Olhando para o contexto global e sendo África, atualmente, o foco de atenção dos grandes investidores internacionais, Angola ocupa, certamente, os lugares cimeiros dos países do continente interessantes para investir. Angola, sem sombra de dúvidas, é um destino de investimento privilegiado para os próximos 15 anos. O mundo global vive desafios cujas respostas, muitas delas, podem-se encontrar em África. Embora um caminho longo esteja ainda por fazer, foram desenvolvidas algumas áreas, mas outras fundamentais continuam a merecer a nossa atenção cuidada, sobretudo na criação de capital humano. Sem querermos encontrar justificações, para algumas áreas que poderiam estar melhores, é preciso não esquecer que, finda guerra e nas duas últimas legislaturas, Angola viveu dois ciclos de crise devido à queda dos preços de petróleo.

 

Com a incerteza no mercado petrolífero mundial, teremos um 2016 com muitas interrogações?

Será certamente um ano desafiante, pois o prolongar da depressão dos preços do petróleo amplia os desafios de financeiros, seja para fazer face à execução interna de despesas, seja para pagamento a compromissos e necessidades do exterior. Considero um bom ano para se refletir e procurar activar outras oportunidades. É preciso redesenhar um modelo de dependência externa, para dependência doméstica, procurando buscar no exterior o essencial, e que verdadeiramente seja diferenciador e necessário. O povo angolano é muito criativo, é preciso aproveitar essa espontaneidade e garra para reverter estes momentos menos positivos.    

Saiu na hora certa do cargo de Vice-Governador do Banco Nacional de Angola ou ainda havia muito mais para dar à casa?

Os lugares públicos não são vitalícios. Depois de seis anos no Banco Central, saí com um sentimento de missão cumprida, naquilo que foram as orientações e missão que nos foi confiada. É importante perceber que, face a novas circunstâncias e novos desafios, outros podem ter um perfil mais adequado para lidar com elas. Apesar do sentimento de missão cumprida, percebemos que os desafios continuam a existir e tratando-se de matérias e um sector muito dinâmico, em permanente evolução, há sempre qualquer coisa mais para fazer ou aprimorar. Neste particular não há obras acabadas.

 

De que forma retrata a experiência vivida enquanto Vice-Governador do BNA? Que desafios viu cumpridos e por realizar?

Uma experiência muito enriquecedora. O Banco Central é uma instituição muito completa. Há o lado da ?empresa,?, com todos os seus temas relacionados: administrativos, recursos humanos, contabilísticos e financeiros. E, por outro, as funções de eleição, ao nível da política monetária e cambial: função estatística, gestão do meio circulante, gestão do sistema de pagamentos, regulatória e de supervisão. Penso terem sido dados passos significativos em toda a dimensão institucional de uma organização grande e complexa com responsabilidades de Estado. É preciso entender o Banco Central como uma instituição que serve os cidadãos: começando na valorização da moeda nacional, procurando garantir a redução do nível de variação dos preços, até garantir o justo, equilibrado e equitativo desenvolvimento da função bancária e não bancária pelas entidades reguladas. Estou convicto de que em toda essa dimensão procurou-se evoluir. Como disse, nunca num processo de obra acabada. Penso agora estarmos numa fase de implementação efectiva do conjunto de iniciativas e acções regulatórias que durante aquele período foram desencadeadas.

 

Que ambições políticas tem em mente para si? Ficaria satisfeito, por exemplo, se fosse apontado para um cargo político? Qual?

Sou um técnico e não um político. As minhas ambições estão por isso muito alinhadas na perspetiva de vida e de servir, ou de prestar um serviço à nação pelo conhecimento técnico que procuro acumular, e que posso, deste modo, transmitir e transferir para os outros. De toda a minha carreira profissional somente esta passagem pelo Banco Central se poderá associar a funções políticas. Também penso, e conhecendo o meu perfil, que sou uma pessoa talhada para missões. Sempre estive disponível para ajudar e dar o meu contributo para que possamos ver Angola como um país de que todos nos orgulhamos e onde gostamos de viver. 

«É preciso redesenhar um modelo de dependência externa, para dependência doméstica»

Atualmente qual é a sua atividade profissional?

Depois do período sabático imposto por Lei e regulamentos do BNA, mantive-me a contribuir como assessor do Ministro das Finanças e a apoiar em algumas iniciativas relacionadas àquele Ministério, e também do Ministério da Justiça. Estou igualmente a lecionar, em cursos de pós-graduação. Esta atividade está a contribuir para estudar e concentrar-me em juntar peças que espero que venham a ser muito mais do que isso, - quando passar de sonho a realidade, falarei com mais detalhe... até lá, a sabedoria dos mais velhos ensina-nos que devemos guardar o segredo connosco. Por último, organizando as minhas atividades no sector privado, ligadas ao sector financeiro.

 

Em que difere o Ricardo Abreu, enquanto profissional, gestor público, consultor, do Ricardo Abreu, homem de família, entre os amigos, hobby, vida social??

Talvez seja melhor o inverso da pergunta. Em que se assemelha (risos). Em muitas coisas! Talvez o mais importante seja o foco, a paixão e determinação de fazer coisas. Os valores da amizade, disponibilidade, amor, entrega às pessoas e coisas que nos são verdadeiramente importantes. Sou uma pessoa reservada. A família é o centro das minhas prioridades, nos meus amigos tenho o conforto da partilha, sincera, verdadeira. Gosto de cozinhar para a família e para os amigos. Faço desporto regularmente, ganhei o gosto por correr, e também jogo golfe. Estive ligado à música, ainda vou dando uns toques (risos) e não sei viver sem a oportunidade de ouvir uma boa execução, uma boa voz, uma bela composição. Isso reflecte-se nos meus filhos, qualquer um deles já nasceu com o ADN predisposto, vamos ver se chegam mais longe que o pai (risos).

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