António Carlos Sumbula

«Os diamantes nunca vão competir com os petróleos»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Photo Atelier ©Walter Fernandes

Era Setembro de 1954, a aldeia de Muxima-Demba-Chio, na província do Bengo, acolhia mais um Ser. Ele cresceu. António Carlos Sumbula tornou-se um homem sábio. Um diamante bruto que, com o passar dos anos, se foi ?lapidando?, opulentando a sua história. Licenciou-se em Engenharia de Minas opção Petróleos na Universidade Agostinho Neto. De seguida, especializou-se em petróleo, Management pelo Instituto Francês de Petróleos (IFP). E não se deteve. Continuou as formações no âmbito da Gestão, de Perfuração e Produção de poços, no Brasil. Entretanto, quis dar o seu contributo ao lecionar Língua Portuguesa e Matemática no Colégio Maristas do Cristo Rei. Passou pela Sonangol, Petrobras, Elf, foi Vice-Ministro de Geologia e Minas. Entre outros cargos, veio a assumir o Conselho de Administração da Endiama, onde, atualmente, no seio diamantífero, seus olhos brilham, quando nos fala de diamantes. Assim o pudemos assistir aquando desta entrevista. 

O core business da Endiama, desde a trajectória que data do séc. XIX, está ligado à prospecção, exploração e comercialização de diamantes. Qual é atualmente o panorama geral do sector diamantífero?

No que diz respeito à atividade prospectiva estamos a ver a possibilidade de descobertas de novas reservas aluvionares, assim como de kimberlitos. Temos, por exemplo, a descoberta do Luaxe que é provavelmente o terceiro maior kimberlito do mundo. É maior que o Catoca (quarto maior do mundo). Agora, precisamos de determinar a prospecção para vermos, a nível mundial, se este kimberlito é o terceiro, o segundo ou se é o primeiro. Em Fevereiro de 2015, iniciámos a lapidação em pequena escala.

Com a acção prospectiva em curso já é possível avançar com datas no que concerne à exploração, propriamente dita, do kimberlito Luaxe?

No decorrer deste ano vamos mobilizar os investimentos, assim como em 2017. Depois, em 2018, começaremos a produção. Em termos aluvionares, e no que diz respeito à nova descoberta, descobrimos o Tchegi, uma pequena mina, na Lunda Sul. Também aí descobrimos o Lulo, outra mina aluvionar. Quanto à lapidação, estamos a lapidar em quantidades reduzidas, primeiro porque é a nossa primeira experiência e temos de formar quadros com qualidade, e depois lapidar um diamante é uma atividade muito sensível, obriga a enormes cuidados. É importante referir que os diamantes lapidados são classificados como excelentes, bons e suficientes. E nós, apesar de estarmos a lapidar pouca quantidade, estamos a ter um resultado excelente.

Então, o que se espera, com a descoberta do novo Kimberlito, é que nos próximos anos a economia cresça neste sector?

Sim. Com a salvaguarda de que, na questão dos diamantes, não basta produzirmos mais, é preciso olharmos também o universo do mercado internacional. Quando há uma oferta excessiva o preço diminui. Temos que jogar para fazer com que coloquemos no mercado a quantidade que corresponda ao preço máximo. Só é possível se estivermos em concertação com os outros produtores de diamantes a nível do mundo. Estou a falar da Alrosa, da Rio Tinto e da De Beers. Há que equilibrar. Os consumidores de diamantes são os mesmos, agora a qualidade do diamante que pode entrar no mercado é que pode diminuir ou aumentar. Durante a crise de 2008, já tivemos um fenómeno parecido, a quantidade de diamante no mercado aumentou e consequentemente a procura diminuiu, logo o preço baixou. Neste momento, estamos em crise do diamante, mas a primeira coisa que fizemos foi acertar com os restantes produtores a quantidade de diamantes que podíamos introduzir no mercado. Todos fazemos contenção. No entanto, a Endiama produz a mesma quantidade, mas faz stock aqui, em Luanda.    

«Nos próximos três anos vamos duplicar a produção de diamante»

Mesmo aumentando a produção, os proveitos não serão superiores. Então, não é correto pensar que, com a conjuntura atual em decréscimo e o valor do petróleo desvalorizado, a aposta passaria pelo sector diamantífero?

Exatamente. Acertando com os outros produtores a nível mundial podemos admitir aumentar um pouco a nossa produção, tal como aconteceu no ano passado. A Alrosa coloca no mercado cerca de cinco biliões de dólares/ano, a De Beers coloca cerca de sete bilhões, a Endiama cerca de 1.2 biliões. Devido à crise que estamos a passar, este é um tipo de negociação que vamos manter. Por mais que a gente aumente a nossa produção, optimize a colocação do nosso diamante no mercado, os diamantes nunca vão competir com os petróleos.  

Até porque o petróleo é acessível a todos e os diamantes apenas a alguns?

Se fizermos as contas, no petróleo produzimos quase um milhão e meio/dia e, se multiplicarmos isso, por exemplo, por 30 USD, são vários biliões de dólares anuais. Ao passo que nós, Endiama, fazemos 1.2 biliões/ano. Ainda que dupliquemos a nossa produção, que é o nosso desejo com a nova descoberta do Luaxe, e tudo indica que nos próximos três anos vamos duplicar a produção de diamante, continuaremos pequenos em relação aos petróleos.

De que forma é que o sector diamantífero pode promover mais investimento para Angola? É um mercado viável para outros investidores apostarem nele?

Quem quer investir em Angola começa na prospecção. É verdade que nós temos áreas por trabalhar. O território angolano, até há bem pouco tempo, era conhecido geologicamente apenas em 40%. Agora, o Governo decidiu fazer os levantamentos geomagnéticos, que no fundo é uma espécie de radiografia dos subsolos, para ver as anomalias. Com isto, temos áreas para acolher mais investidores para prospectarmos os recursos minerados. Sim, os investidores devem vir e o potencial angolano é grande. Quando olhamos para a geografia mundial, como a Rússia, Canadá, Austrália, Africa do Sul, Botswana, Namíbia, a qualidade de reservas diamantíferas decresceu graficamente. Ao passo que, em Angola, a quantidade de reservas diamantíferas está a aumentar, logo Angola é o ponto onde os investidores devem recorrer neste momento.    

Até porque, mediante o plano de desenvolvimento 2013/2017, a previsão é um aumento significativo da produção.

Falou-se em 10 milhões, mas tivemos que corrigir. Na altura a De Beers estava a fazer uma prospecção de diamantes e estava a ter bons indícios numa região chamada Mulepi, e na altura Sua Ex.ª o Sr. Presidente, José Eduardo dos Santos, achou que poderia pensar-se já numa quantidade de dez milhões de quilates, quando atualmente produzimos oito milhões. Mas a descoberta revelou-se, digamos, insuficiente e economicamente não viável. O que vai fazer com que a gente duplique a produção nacional vai ser o Luaxe.

O objetivo é duplicar a produção, logo, a Endiama tem aqui muito para fazer?

Exatamente. A nossa função agora é negociar com os outros produtores para nos deixar colocar essa parte da produção no mercado.

São os quartos melhores do mundo, no que tange à produção diamantífera, o que falta para serem os primeiros?

É uma questão da natureza e das descobertas feitas até aqui. Já é muito bom que sejamos os quartos. É uma questão, por um lado, da natureza, que nos dá os kimberlitos e, por outro lado, a perspicácia dos prospectores em descobri-los. Há países que hoje não têm nada, mas pode acontecer que no futuro descubram reservas economicamente viáveis que cheguem a ocupar o 1.º, 2.º ou 3.º lugar no mundo.

Concentrados, este ano, em prospectar o Luaxe e na produção de milhões de quilates, o que espera de 2016?

Este ano queremos negociar com os outros produtores para fazer com que, quando o Luaxe estiver em produção, se encontre um mercado sem que o preço baixe. Estamos aqui para trabalhar e convidámos investidores para nos ajudar a fazer com que, para além do Luaxe, a gente descubra mais kimberlitos. 

 «Angola é o ponto onde os investidores devem recorrer neste momento»

A Endiama também está muito ligada à área social, como a realização de projetos sociais, criação de centros escolares, etc. Porquê esta preocupação?

Já fizemos escolas em diversas províncias como no Bié, outra de ensino médio de agricultura, na Lunda Norte, e neste momento estamos a fazer outra em cooperação com o Governo local e a igreja católica. Na Lunda Sul, estamos a fazer quatro mil casas para os trabalhadores do Catoca. Para além disto, também acudimos as calamidades naturais como, por exemplo, as enxurradas que tiveram lugar em Janeiro, na região da Kissama. Já construímos uma clínica na ilha e outra em Talatona, equipadas com qualidade de medicina e de médicos, onde podem ser feitos muitos tratamentos e exames. Já colocámos sucursais em dez províncias, mas queremos chegar a todas.

Em que moldes é que Angola é conselheira do sector diamantífero para o mundo?

O processo do certificado do diamante foi criado pelo nosso Presidente da República. O comité internacional implementou este certificado internacionalmente. Anualmente, há um país que preside o Processo de Kimberley e há um outro que co-preside. Em Angola, apesar de termos sido os estrategas, o facto de termos sido parte do problema fez com que nunca chegássemos a chefiar esse Processo de Kimberley. O primeiro a chefiar foi a África do Sul, depois a Rússia, Estados Unidos, o Congo Democrático, até que Angola fosse aceite a presidir o Processo de Kimberley em 2015. Tínhamos sido Vice-presidentes em 2014. Quando Angola assumiu a presidência, no ano passado, esclareceu os membros do Processo Kimberley de que o que se estava a passar na população sul-africana era contra os princípios que levaram à criação de Kimberley. Com isto, a comunidade internacional pede-nos para ajudarmos outros países que estejam com dificuldade como, por exemplo, a Venezuela. Podem-nos chamar o que quiserem, conselheiros, não sei, mas alguma coisa nós somos (risos).    

Circuito do diamante:

Para se falar do circuito do diamante temos de fazer alguma referência à história de Angola. Reza a história que o diamante já foi usado para a compra de armas e fomento de guerras. Houve rebeldes em Angola, no Congo Democrático, na Libéria, na Serra Leoa, que produziam diamantes aluvionares, vendiam-nos e, com esse dinheiro, compravam armas e lutavam contra os governos. Para evitar isto, houve a chamada batalha do Cuito Cuanavale, na região de Cuando Cubango, onde o exército do Apartheid, que pretendia ocupar Angola, foi derrotado. Sua Ex.ª o Sr. Presidente da República de Angola apresentou três condições às forças do Apartheid: a primeira condição passava por se assinar um acordo que determinava que as forças do Apartheid não invadissem mais Angola; a segunda foi a de que o Apartheid devia ser banido e o Exmo. Sr. Presidente Nelson Mandela deveria ser libertado; e a última condição foi a de que a Namíbia, que serviu de trampolim para as forças do Apartheid atacar Angola, passasse a ser um estado independente. Então, com estas três condições no interior de Angola, esperava-se que a UNITA assinasse o acordo de paz. Não aconteceu. As forças da UNITA perderam o apoio do Apartheid, já não tinham a Namíbia como país de trampolim, começaram a explorar diamantes no país e passaram a ter mais dinheiro do que tinham até então. Ora, não havia acordo de paz, o problema duplicou-se. Como resolver?! Sua Exª. o Presidente da República de Angola decidiu, através das relações exteriores, convencer o mundo, a quem vendiam diamantes, de que o diamante sairia do país, mas acompanhado de um certificado de origem. Deste modo, nenhum rebelde falsificaria, e todo o diamante que chegasse à Bélgica ou a Tel Aviv sem o referido certificado seria apreendido, pois teria sido levado pelos rebeldes. Este fenómeno, dos rebeldes, estava a acontecer também no Congo Democrático, na Libéria e na Serra Leoa. Era um problema das Nações Unidas. Acontece que, as Nações Unidas mandaram para Angola o embaixador Robert Fowler, canadiano, com a proposta de banir os países que tinham o problema de diamantes de sangue. Os diamantes de Angola saíam com certificado. Robert Fowler comunicou às Nações Unidas essa ideia e, desta forma, transformaram este certificado num documento internacional, eliminando os diamantes de sangue em todo o planeta. Neste momento, as guerras terminaram, mas agora o processo existe apenas para prevenir o aparecimento de outras.

Diamante aluvionar: é aquele diamante que vem desagregado da origem, pois normalmente o diamante original é um magma que vem do sobsolo, com milhares de anos, e mantém-se num piper chamado kimberlito. Ao longo de milhares de anos que há erosões, rios que, com os seus circuitos sinuosos, passam por cima desses kimberlitos e vão fazendo depósitos de diamantes aluvionares por Angola fora, até ao mar. Tanto a Diamang como a Endiama, durante cem anos, apenas exploraram os depósitos aluvionares. Foi com conhecimento científico que, a Endiama e a Alrosa, em 2011 e 2012, foram à descoberta da origem destes aluvionares. E o curioso é que quando se mede o raio beta do diamante do mesmo kimberlito esse raio não muda.

Diamante Kimberlito: Quando se pega num kimberlito, por exemplo no Sanga mina, e se mede o raio beta, esse raio beta é diferente do Catoca, ou seja, cada kimberlito tem o seu ADN. Pega-se nos diamantes espalhados por Angola, como em Malange, Lunda Norte, Lunda Sul, Moxico, Cunene, Bié, e estuda-se o ADN. Faz-se a correlação, e aí vê-se de qual kimberlito veio esse diamante. Por exemplo, se o diamante tiver o mesmo raio beta, do lado esquerdo, igual ao do Catoca, significa que esse diamante veio do Catoca. Com isto, chegou-se à conclusão de que só 10% dos diamantes aluvionares vieram de zona conhecida. A Endiama e Alrosa começaram um estudo, perto do Catoca, procurando para cima e para baixo, e lateralmente, e andaram 25 quilómetros a partir do Catoca e descobriram o Luaxe. Mas, agora, aumentou-se o número de kimberlitos conhecidos. Talvez se chegue à conclusão de que 80% dos diamantes aluvionares tenham vindo do Luaxe, uma vez que está atravessado por um rio.    

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