Manuel Gonçalves

«Preocupa-me a solidariedade relativamente à criança, à cultura e às artes»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Daniel Camacho

«Menino de rua, a rua é tua». Os discos já lançados e as composições escritas povoam-lhe a memória. E não só pelo seu significado, mas também pela presença que denotam na sua sociedade. Compõe, canta e toca violão. Desde a sua infância que o gosto pela música lhe volateia na alma. Aos nove anos apresentou-se com Os Mini-Craques, e até aos dias de hoje Manuel Gonçalves, para a grande maioria, ou Né, para os amigos, fica na memória do povo. Os versos das suas canções eternizam a história percorrida pelo país que o viu nascer. Ora escutemos: «Luanda, tu fazes sorrir os raios de sol batendo no mar/ Luanda, tu fazes sonhar com teu sol ardente/?Luanda mexe e remexe no semba, dos becos do Cazenga até à marginal». E não é apenas o Semba que abraça a vontade de Manuel. Lidera um dos fortes grupos de Angola - Grupo ENSA; na advocacia impõe a justiça; dedica parte do seu tempo a lecionar; e é com o tempo que ele se refugia na música não fosse ele um homem ?emprestado? e de fortes paixões. E a paixão por Esperança vive eterna: «Minha velha tem a dor do nosso tempo no olhar/ o tempo pesa e o corpo não consegue caminhar/ dos olhos nasce essa força interior/ que é Esperança e se transforma/ em Amor/ e faz trilhar teus filhos/ a sinuosa estrada/ em busca de bonança/ e ensina a suster as lágrimas sorrindo/?velha Esperança/ negra mãe/ minha Esperança/ nossa mãe».    

Como recebeu a recondução para o cargo que ocupa no grupo ENSA, como Presidente do Conselho de Administração (PCA), e que balanço faz?

Mais do que um cargo, como um duplo encargo, o de conduzir os destinos das empresas Grupo ENSA ? Investimentos e participações, EP ? a holding que se pretende que controle as treze empresas subsidiárias e participadas do universo ENSA - e ENSA Seguros de Angola, SA. Ganhámos espaço no mercado, intervindo em vários sectores incluindo o financeiro bancário numa instituição com a relevante participação de 40% e continuamos a liderar o sector segurador com 36% de quota de um mercado partilhado por 19 players. Continuamos a ser merecedores de grande credibilidade e reconhecimento, o que faz com que, em momentos mais difíceis como os de hoje, continuemos motivados para diversificar os nossos investimentos e proteger os riscos das empresas que operam no país e das pessoas, independentemente da sua segmentação. Um novo Conselho de Administração, mais jovem, dinâmico e especializado é uma importante garantia de enfrentar os desafios futuros com confiança.


Quais os segredos do sucesso à frente de uma empresa?

Motivação é essencial, principalmente quando assenta na consciência de que ainda há na nossa sociedade muito sofrimento a superar, e de que o emprego é uma das traves mestras do edifício social em construção; é preciso visão estratégica que permita perceber e intervir na complexidade dos fenómenos económicos e da microssociologia das organizações; o compromisso tem que ser inabalável e nada se faz sem muito trabalho eficiente, num espírito de equipa com alinhamento indestrutível.


O sector segurador evolui e contribui para o crescimento da economia do país. Como se explica o sucesso e expansão da ENSA Seguros? É um bom PCA que faz esse caminho ou há muito mais que isso?

A indústria seguradora nacional ainda tem grandes oportunidades de crescimento para se colocar em linha com outros países com idêntico estágio de maturidade, incluindo os de proximidade geográfica. O aumento da literacia financeira e a criação e efectiva fiscalização de mais seguros obrigatórios são fatores críticos de sucesso. A ENSA é única na caracterização do activo que tem de mais valioso: as suas pessoas. O PCA é apenas o líder da equipa, e sem equipa não há líder. «Se quiseres ir depressa, vai sozinho; se quiseres ir longe, vai com os outros», diz um velho ditado africano. Uma equipa totalmente alinhada à volta dos objetivos estratégicos é a chave do sucesso.    

«Investidores nacionais e estrangeiros continuam interessados em investir no sector segurador»

A ENSA Seguros continua a liderar o sector segurador. Que estratégias são usadas para se manterem firmes no mercado angolano?

Consolidamos uma cultura empresarial que privilegia o trabalho de qualidade a favor do cliente, o que pressupõe a implementação de tecnologias, processos, canais de distribuição e o desenvolvimento de pessoas com CHA (Conhecimento, Habilidades e Atitude) para assegurar proximidade e adequação às necessidades.


Como vê Angola no ano 2016? Qual é a grande aposta do grupo ENSA para este ano? Que caminhos esperam seguir?

Este vai ser um ano muito difícil, a julgar pelo decurso de 2015 e a permanência, senão mesmo agravamento, das variáveis externas e internas condicionantes dos principais indicadores macroeconómicos de performance da economia nacional. O país precisa de reforçar a ênfase na resiliência e no aumento do sentido de urgência, para resistir a choques sistémicos e aumentar a capacidade de adaptação à mudança. Na ENSA temos que ser melhores do que os outros, continuando a aprimorar a nossa eficiência para aumentar as vendas, e reduzir e controlar os custos operacionais.


Os angolanos continuam a apostar no sector segurador, mesmo com a atual situação económica do país, com falta de divisas e a saída de empresas do mercado angolano?

Investidores nacionais e estrangeiros continuam interessados em investir no sector segurador, o que mostra que acreditam nas suas potencialidades. Olhamos para a realidade sem fatalismos. Temos que enfrentar a dureza dos números e partir do princípio de que devemos ser nós os atores da mudança. Temos resistido e enfrentado dificuldades próprias de situações críticas que afectam os processos de cobrança, e a liquidez cambial tão necessária a corresponder às necessidades de cobertura de riscos em matéria de resseguro, de saúde ou necessidades tecnológicas. Os operadores angolanos têm que resistir estoicamente, criando uma nova cultura que permita a adaptação aos novos tempos. Os empresários e cidadãos, angolanos ou residentes em Angola, sabem, cada vez melhor, que em situação de crise têm que proteger os seus bens pessoais e patrimoniais, e que a contratação de um seguro, para o efeito, ainda é a melhor forma de o conseguir.    

Sabemos que continua a dividir-se entre as várias atividades que exerce: advocacia, gestão empresarial, as aulas que lecciona e a música, imprimindo a mesma qualidade. Como se explica esse sucesso num homem só? 

Sou um homem que aceita ser emprestado, adaptando-se a novas situações, e de fortes paixões. Da música, muito cedo, e das explicações quando ainda estava no liceu, fui emprestado à advocacia e à docência e, depois, à gestão. À partida, dedico-me àquilo de que gosto e rapidamente gosto daquilo que faço. O foco essencial, neste momento, é a gestão, tenho no escritório de advocacia uma excelente equipa que me reduz a intervenções pontuais e decisivas, tal como acontece com a docência que ficou ainda mais limitada. Vou compondo ao longo dos anos e nem sinto que a música ocupe espaço. É fonte de libertação de espaço e da alma.

É autor de várias canções populares. O que procura na música? Refúgio, fuga da rotina, uma paixão vindoura??

Violão aos sete anos, primeiro palco aos nove, e desde o colo a ouvir a mãe Esperança que tanto gostava de cantar. A música é parte de mim, desde sempre. Está na alma. Hoje, é a principal razão do meu work-life balance. Por isso, tenho dito: tirem-me a música e serei, seguramente, menos profissional em tudo o resto.    

«Os operadores angolanos têm que resistir estoicamente, criando uma nova cultura que permita a adaptação aos novos tempos»

A responsabilidade social sensibiliza-o? De que forma? O que é que pode ser feito para se valorizar, cada vez mais, o ser humano?

Convivo com a sensação de que no meio do grande esforço nacional para a reconstrução física de estruturas e do equilíbrio das pessoas, tudo o que foi feito ainda é muito pouco diante de tanta gente no país a suplicar por crescimento económico, e a melhoria dos índices de desenvolvimento humano, a precisar de emergir da pobreza com dignidade humana. A alteração do status quo reclama uma postura em que cada cidadão ou organização se sinta socialmente comprometido, num processo participativo de autêntica parceria estratégica com o Estado. Pessoalmente, preocupa-me a solidariedade relativamente à criança, à cultura e às artes. O país será o que soubermos dar hoje às crianças no que diz respeito aos seus direitos humanos. A educação nos vários domínios das artes, susceptível de proporcionar a sensibilidade, a curiosidade e a capacidade para pensar, criar e inovar. Os artistas, por sua vez, são seres particularmente capazes de captar o pulsar social, as ansiedades, as inquietações e os sonhos.


Sente-se um homem e um profissional bem-sucedido?

Considero a educação dos filhos e a harmonia familiar dos melhores parâmetros de avaliação do sucesso pessoal, e o investimento realizado, em geral, tem gerado muito bons resultados. Profissionalmente, sinto o reconhecimento das pessoas, institucional e social. Sucede que sou e estou permanentemente insatisfeito e inquieto. Cada vitória coloca-nos num novo patamar de responsabilidade, e perante um ímpeto interior para enfrentar novos desafios de mudança social.    

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