João Mabuaka

«A arte é como uma segunda esposa»

\\ Texto João Afonso Ribeiro
\\ Fotografia Daniel Camacho

João Domingos Mabuaka é Mayembe no mundo das artes. Natural do Zaire, é um artista multifacetado, cuja alma angolana lhe alimenta a inesgotável sede de inspiração, típica daqueles que devem à criatividade a essência do seu trabalho. O escultor, que também é pintor, começou por trabalhar a madeira, influenciado pelas origens. Mais tarde, enveredaria pela escultura em pedra, pela pintura e até pelo desenho de jóias. Com uma postura tímida, encoberta por um tom apaixonado, Mabuaka fala sobre o seu espírito autodidacta, sobre a forma como galgou mundo e como conquistou prémios internacionais e nacionais, como o tão desejado Prémio Nacional de Cultura e Artes, na categoria de Artes Plásticas, em 2014.

 

Como é que começou o gosto pela arte?
Comecei esta arte com 13 anos de idade. Aos 24 fui consagrado como mestre no campo da arte clássica. Fui-me aperfeiçoando, fiz exposições internacionais, e houve um concurso em Brazzaville onde participavam várias pessoas de diferentes títulos no campo das artes plásticas ao qual concorri com uma única peça, e essa peça ganhou o prémio internacional do CICIBA, onde estavam a concurso cerca de 300 obras de escultura. Esse foi o meu primeiro prémio. Depois, em Angola, concorri ao Ensarte e ganhei o prémio. Fui expondo e houve uma grande manifestação de admiração pelo meu trabalho.
 
Mas o seu percurso de sucesso levou-o depois a correr mundo.
Sim. Fui convidado a fazer uma exposição para a BAI Arte, bem como, por duas vezes, a expor na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. Expus no Brasil, França, Espanha, Japão, entre outros. Ainda fui convidado pela primeira-dama Mubarak, no Egito, para fazer um trabalho para integrar um hospital dedicado ao tratamento crianças com cancro.

«Inspiro-me no quotidiano, no folclórico, no exótico, no clássico»

Porque é que trabalha em madeira?
Eu inspiro-me no quotidiano, no folclórico, no exótico, no clássico. Na minha zona, o que abunda mais é a madeira. Tudo me leva a dizer que a árvore nunca pode desvincular-se da terra. Então, eu sinto que não posso desvincular-me da madeira, onde eu tenho as grandes raízes. A madeira veio para ficar até morrer.
 
Mas também trabalha em pedra.
Sempre que começo uma obra, começo por analisar que material pode dar mais sustentabilidade ao meu trabalho, para que ele possa permanecer por vários anos. Desde o princípio, a minha escultura foi sempre caracterizada pela madeira. Mas uma vez, no Zimbabwe, vi algumas esculturas de talha sobre pedra. Aí eu disse que um dia tinha de aprender a fazer escultura em pedra.
 
Quanto tempo demora uma peça em pedra a fazer?
Uma peça experimental que fiz ? com 2,75 metros de altura, por 97 cm de largura ? levou-me entre quatro a cinco meses. Isto, sem me dedicar a outras coisas, dando enfoque total a essa peça.
 
Como surgiu o gosto pela pintura?
Não sou pintor mas vou pedindo sempre opiniões às pessoas que vêem o meu trabalho, que admiram. Quando fui à Argélia, a uma exposição pan-africana, estive com um pintor/escultor muito famoso de Brazzaville. Ele tinha de fazer trabalho prático e pedi para ajudar. Fui aprendendo com ele, voltei a Angola e fui experimentando. O processo de areia na pintura que eu utilizo trouxe da Argélia. Eu vejo que a escultura é uma arte muito forte, dificilmente se tira do coração. É um elemento tridimensional, por isso posso criar uma peça de escultura com vários ângulos e em várias dimensões. A pintura é diferente. É uma obra bidimensional, onde as formas de aplicação dão uma sensação activa e levam o apreciador a imaginar o outro lado do artista. Deixa o apreciador a pensar. Isso fascinou-me.

A arte é uma paixão?
Eu amo tanto a arte que chego a ver nela uma segunda esposa. Às vezes até parece que é a primeira esposa. Porque eu cheguei a um certo momento que acordava para ir rever a obra no atelier. Trabalhava, trabalhava e depois lá para as tantas ia descansar. E acordava outra vez, imaginava e saía da cama para poder visitar o atelier. É mesmo uma paixão.
 
Sente-se realizado?
Não. Na verdade eu acredito que a vida é dinâmica, que o mundo é dinâmico e que a escultura também é dinâmica. Eu quero aprender mais, aperfeiçoar-me. Não quero deixar de aprender.

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