Pedro Hossi

«Sinto-me em casa quando estou a fazer cinema»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Daniel Camacho Isabel Saldanha

Não foi com o cair de um trovão numa montanha que o gosto por representar surgiu na vida de Pedro Hossi. Experimentou fazer teatro, aos 19 anos. Não correu bem. A teimosia fê-lo perceber que havia qualquer coisa que o movia naquela direcção. Foi à procura de formação. Nova Iorque esperava-o. Foi aceite numa das mais prestigiadas escolas de atores: a Lee Strasberg. Apaixona-se pelo teatro. O cinema aparece mais tarde na sua vida. Aos 22 anos dá o salto na carreira. Fez teatro, em Paris, onde trabalhou com o americano Jack Waltzer. Depois segue rumo a Los Angeles. Aqui nasce a paixão pelo cinema. Há uma coisa que Pedro gosta de lembrar: o momento entre a «acção» e o «corta» pode ser tão sublime quanto saltar de um avião e fazer skydiving ou conduzir a sua moto pela pacífica Highway Coast, aquela que liga los Angeles a São Francisco. É a adrenalina no máximo.

Como foi a sua infância?
Tive uma infância feliz. Passei-a entre Luanda e Portugal. Vivi cá (Luanda) até aos dois anos, depois fui para Portugal. Vinha cá pelo menos uma vez por ano. Ainda faço parte da geração que brincava nas ruas. Nós não sabíamos o que era ter telemóveis e computadores.
 
O que o marcou mais?
Desde muito cedo, o gosto pela velocidade. Comecei por ter bicicletas. Depois, tive motas e tenho até hoje. Sou um aficionado da velocidade. Na adolescência fazia parte das corridas de BMX e depois acabou por ser uma paixão. Paixão que permanece até hoje. As motas e a velocidade.

«É gratificante ver o meu trabalho reconhecido depois de tanta polémica.»

 

É o gosto pela velocidade que o faz ter sucesso?
Ah, isso é uma boa pergunta. Não. A velocidade, hoje em dia, funciona como uma terapia. Não é bem a velocidade mas sim o andar de mota. Nós somos constantemente bombardeados pelas redes sociais, telefone, internet, há uma série de funções e, quando estou a conduzir uma moto, sou eu e uma máquina, só. Há momentos de solidão que para mim são preciosos. 
 
Sente necessidade de, às vezes, esquecer o mundo e viver apenas o seu?
Enquanto conduzo é o meu mundo. Faz-me bem. É quando analiso. Penso. Quando tomo decisões.
 
Um ator nasce com o talento?
Existe uma percentagem, muito pequena, de atores que nascem com um talento inato. A maioria dos atores que conheço, grandes atores, são pessoas que foram à procura de formação, como eu fui.  
 
E como foi parar às telenovelas?
 (Risos). Era um sonho de criança. Estou a brincar. (risos). O papel era irrecusável para qualquer ator. Como os brasileiros dizem, foi um presente.
 
Valeu a pena?
Valeu. Superou todas as minhas expectativas. A novela Jikulumessu é o programa com maior audiência de sempre na Televisão Pública de Angola. É um sucesso absoluto.

Qual foi a maior dificuldade que encontrou?
A novela Jikulumessu foi suspensa. Lidar com esse nível de exposição mediática foi uma coisa que me assustou. Foi como ter de deixar de ser um ator durante aquelas semanas e passei a ser, pela sensação que tive, um alvo político. Isso foi complicado. Mas o que aconteceu deu abertura a um diálogo sobre a questão da homossexualidade. Está na altura de se falar. 
 
Alguma vez sentiu medo na rua por causa do papel que representou?
Houve um caso isolado. Na altura do beijo homossexual. Fui abordado na rua de uma forma menos simpática. O diálogo estava um bocado agressivo. Agora há empatia. As pessoas perceberam as consequências que este tipo de rejeição pode ter.

«A falta de tempo é a coisa que me tira do sério, como ator.»

Como vê a área da representação em Angola?
Aqui é uma indústria que se encontra numa fase embrionária. A Semba Comunicação está de parabéns pelas produções que tem criado. Se Deus quiser vamos ser nomeados ao Emmy. Tem de haver mais apoio da parte do Ministério da Cultura, das entidades que regulam, em Angola.
 
Ganhou o prémio de melhor ator, atribuído pela moda Luanda 2015. O que representou pra si?
Ganhei um prémio, no ano passado, pelo filme Grand Kilapy, do grande realizador Zezé Gamboa. Mas, este, em 2015, teve um sabor muito especial. Algumas das melhores cenas que eu fiz na vida fiz neste projeto, Jikulumessu. É gratificante ver o meu trabalho reconhecido depois de tanta polémica.
 
E agora que projetos tem em vista?
Tenho um projeto para a televisão em Portugal mas por razões contratuais não posso adiantar muito mais.
 
E Los Angeles fica para trás?
Não, não. Há muita coisa a acontecer e sinto que sou mais útil fora de Los Angeles. Quero fazer coisas no Brasil. Esta nossa geração está a criar e a trabalhar em conjunto. Cada vez menos estamos a precisar de um sistema, como os canais. Estamos a criar esta ligação entre Angola, Portugal e Brasil. E Cabo Verde agora também. Assim ganhamos um controlo sobre o nosso trabalho, coisa que há uns anos atrás não acontecia.  


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