Porto de Luanda - Manuel Zangui

«Não temos outra solução senão crescer»

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Daniel Camacho

São 450 funcionários administrativos e cerca de três mil a nível de terminais. Nos registos de 2014, contam-se movimentos de 1135 navios de longo curso, 13 milhões de toneladas de carga e um milhão de contentores. Os números estão bem sabidos por Manuel Zangui, atual administrador comercial do Porto de Luanda. Funcionário desde 1996, Manuel Zangui já exerceu diversas funções que contribuíram para que este porto fosse considerado um dos melhores de África. Licenciado em Língua Inglesa e com um vasto percurso na área portuária, com formações no Japão, Alemanha ou Holanda, Manuel Zangui diz-se orgulhoso do trabalho que tem desenvolvido. Mas como «um porto nunca é um projeto acabado», ainda há muito para crescer.
 
Trabalha no Porto de Luanda há 19 anos. Qual foi a maior dificuldade que encontrou quando cá chegou?
Eu era jovem quando entrei para a empresa e a primeira dificuldade que encontrei foi na relação com as pessoas mais velhas. Pensavam que uma pessoa jovem não podia ascender, não podia estar à frente delas. Foi um desafio muito grande conquistar a aceitação das pessoas. Precisei de trabalhar e dar provas que o facto de ser jovem não significa que não tenha capacidades para chegar mais além. O meu exemplo fez as gerações que vieram depois de mim acreditar que é possível ascender na empresa e na carreira não importando a idade. Hoje, sinto-me bastante feliz e orgulhoso.
 
Que valências tem o Porto de Luanda?
O Porto de Luanda é o maior porto de Angola, tanto em termos de extensão geográfica como de produtividade. Já existe há 70 anos. É composto por cinco terminais: um terminal de carga geral, dois terminais polivalentes que fazem descarga de contentores ou carga geral, um terminal de contentores e uma base de apoio à atividade petrolífera. Em termos de produção, os nossos registos apontam para que, em 2010, o porto tenha movimentado 896 navios de longo curso e, em 2014, 1135. Vemos aqui um crescimento considerável. Em termos de produção geral em toneladas, em 2010, os dados apontavam para 9 milhões de toneladas e, quatro anos depois, 13 milhões. A nível de movimentação de contentores, em 2010, o porto movimentou 376 mil contentores e, em 2014, um milhão.

«Foi um desafio muito grande conquistar a aceitação das pessoas»    

A que se deve este sucesso?
Primeiro, o próprio modelo operacional do porto. Somos o único porto em Angola que adoptou o sistema de porto senhorio, ou seja, que concedeu a gestão dos terminais portuários a operadores privados e a nossa administração está no controlo dessas concessões. Fizeram-se investimentos que contribuíram para o crescimento. Hoje, os nossos terminais estão entre os melhores do continente africano. A nível da região, a competitividade está a crescer a cada dia. E essa competitividade está a ser ditada pela própria tendência da indústria marítima que está a optar por operar navios com maior dimensão. Então, os terminais, não só os de Luanda, têm de investir em infraestruturas capazes de receber esses navios. O Porto de Luanda investiu e a sua performance tem sido reconhecida. Exemplo disso é o prémio que recebemos na Alemanha recentemente.
 
Que tipo de mercadorias passam pelo Porto de Luanda?
Angola vem de um período de guerra e o Porto de Luanda sempre foi o local onde era descarregado todo o material para alimentação e construção. Era o porto mais seguro e continua a ter muita importância hoje, uma vez que Luanda é a cidade mais avultada do país, com mais consumidores e empresas, e todo o negócio começa aqui. Estima-se que movimentamos cerca de 80% de toda a mercadoria que entra em Angola por via marítima. Tudo o que é consumido no país, sobretudo na região norte, passa por aqui. Desde bens de consumo, maquinaria, materiais de construção?

Ainda há oportunidades para crescer mais?
Um porto nunca é um projeto acabado. Não temos outra solução senão crescer. Neste momento temos a limitação a nível de espaço mas, com o que temos, estamos a desenvolver projetos para melhorar os acessos marítimos e terrestres. Melhores acessos marítimos permitem-nos operar navios de última geração que exigem ao porto maior profundidade, melhor sinalização, pilotos bem treinados, meios de manuseamento de reboques e manobras eficientes. Estamos a fazer uma limpeza do fundo de alguns terminais para que possamos receber esses navios. Do lado de terra, existem agora projetos a ser executados pelo Ministério da Construção que permitirá escoar a carga de uma maneira mais célere, através, por exemplo, da melhoria da conexão com os caminhos-de-ferro. É necessário também aperfeiçoar o uso das tecnologias de informação e os recursos humanos.

«Estamos a desenvolver projetos para melhorar os acessos marítimos e terrestres»

E utilizar o Porto para fins turísticos, recebendo navios de cruzeiro, é possível?
Nós já temos recebido navios de cruzeiro. O maior tinha cerca de 200 metros. O que acontece é que não temos infraestruturas propícias para a recepção desses navios. O que fazemos quando existem navios a chegar é criar condições dentro daquilo que nós temos. Utilizamos o porto comercial.
 
Estando o país a limitar as importações, o Porto de Luanda tem sofrido quebras?
Continua a haver muita importação. Existe agora a política de diversificação da economia do Governo, que aposta na produção interna. Neste momento, o Porto de Luanda importa mais do que exporta. A economia nacional está ainda muito voltada para a importação, infelizmente. Como qualquer porto, nós acompanhamos a dinâmica da sociedade. Se o país produzir mais e começar a exportar, as mercadorias vão sempre passar pelo Porto. Mas se continuarmos a importar, as mercadorias passam por aqui também. O Porto funciona tanto para importação como exportação, por isso, qualquer que seja a tendência, nós estamos salvaguardados.

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