Agostinho Mendes de Carvalho (1924-2014)

Um rosto da Geração do Silêncio

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira Maria Cruz
\\ Fotografia D.R.

Foi no dia 29 de Agosto de 1924 que a sanzala de Calomboloca, no concelho de Catete, a cerca de 100 km de Luanda, viu nascer uma mente brilhante. Um político e escritor nato. Homem da terra. Na capital, tirou o curso de enfermagem, profissão que exerceu durante vários anos e permitiu que viajasse por todo o país. Mas desde cedo assumiu um compromisso na luta pela independência de Angola. Ao lado de António Agostinho Neto e do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), traçou ideias que conduziram à libertação do povo. Contudo, esta sua dedicação política levou-o a abdicar de 12 anos dessa liberdade que tanto perseguia, fazendo da prisão do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, uma fonte de inspiração. Durante esses anos, encarcerado pela PIDE e envolvido no mediático Processo dos 50, Agostinho Mendes de Carvalho modelou a sua faceta de escritor. Deixou de ser um nome com relevância apenas política, dando a conhecer ao mundo o Uanhenga Xitu, pseudónimo com que passou a assinar as suas obras literárias e que significava o seu próprio nome na língua Kimbundu.

Reconhecido pelo seu pseudónimo Uanhenga Xitu, Agostinho Mendes de Carvalho é um dos símbolos da literatura angolana
Considerado um escritor da Geração do Silêncio - a geração da década de 70 marcada pelo uso de palavras dissimuladas em obras com fortes linhas de combate, denúncia, revolta e indignação -, o romancista era reconhecido pela sua capacidade de evidenciar os conflitos vividos na sociedade angolana, através de uma linguagem envolta em humorismo, tornando até as situações mais trágicas em momentos cómicos. Mestre Tamoda (publicada em 1974), uma das obras mais célebres do autor e escrita durante o período de prisão (1962-1970), é um exemplo desse estilo próprio de Uanhenga Xitu, que tão bem empregava a língua portuguesa e o Kimbundu. Acerca desta obra, o escritor chegou a explicar várias vezes que o contexto em que a escreveu não era fácil e nunca iria conseguir replicá-la tão bem como elaborou a versão original, confiscada na prisão. «A obra publicada de Mestre Tamoda, como algumas vezes expliquei aos leitores, foi escrita na cadeia, onde a vigilância e busca dos guardas e da parte de outras entidades prisionais era constante. Eu e outros companheiros vimos confiscados, além da correspondência familiar e documentos, trabalhos literários de grande valor que nunca mais recuperámos e, para voltar a reproduzi-los tal e qual, será difícil», relatava Uanhenga Xitu. Sobre as personagens, diz-se que o escritor inspirava-se nas pessoas que conheceu ao longo da vida. 

Com traços reais ou meramente ficcionadas, as personagens que compunham as obras de Uanhenga Xitu nunca tinham um destino traçado à partida. O próprio chegou a afirmar que: «as personagens do meu mundo ficcional, a princípio apenas imaginadas, vão-se autocriando, ganham rosto próprio e, mesmo quando lhes dou mais atenção, tornam-se tão autónomas no interior da minha narrativa que nem sempre o destino que lhes traçara acaba por se cumprir. Nunca soube, antecipadamente, o fim que cada uma teria». Deixando as suas personagens ganhar o tal rosto próprio e perdurar pelo tempo, o escritor deu asas à criação de um vasto leque de obras literárias, que lhe valeram até o Prémio Nacional de Cultura e Artes, em 2006. 

Lutador e resistente, apenas cessou as atividades políticas quando a idade já não lhe permitia ter o mesmo vigor
 

Na lista conta-se Meu Discurso, Bola com Feitiço, Manana (1974), Vozes na Sanzala ? Kahitu (1976), Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem (1980), Os Discursos de Mestre Tamoda (1984), Cultos Especiais (1997) ou O Ministro (1989). Esta última poderá ter sido inspirada no próprio percurso de Mendes de Carvalho, que após a Independência de Angola desempenhou funções como comissário (governador) da Província de Luanda, Embaixador de Angola na Alemanha, deputado pelo MPLA na Assembleia Nacional e, como o título da obra reclama, ministro da Saúde. Lutador e resistente, apenas cessou as suas atividades políticas quando a idade já não lhe permitia ter o mesmo vigor no desempenho dos seus ofícios. E esse vigor apagou-se definitivamente há pouco mais de um ano. Mendes de Carvalho faleceu, aos 89 anos, no dia 13 de Fevereiro de 2014. Embora este símbolo da modernização da literatura nacional já tenha partido, as suas obras permanecerão eternas. Porque o tempo passa, mas as suas palavras ficarão para sempre na memória dos angolanos.
 

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