Luis José de Almeida

«Sinto-me muito orgulhoso da vida que levei»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia António Gamito

Homem de lutas, conquistas e protagonista de muitas histórias. O Embaixador Luís José de Almeida já andou pelo mundo, conheceu novos povos, culturas e hábitos. Estudou sociologia, passou pelo jornalismo, mas foi a diplomacia que preencheu o maior pedaço da sua vida. Com um curriculum invejável, este homem exerceu várias funções como embaixador da República de Angola. Percorreu países como França, Alemanha, Etiópia, Marrocos, entre outros. Um verdadeiro conquistador, sempre abraçando a mesma causa: a libertação de Angola. Foi condecorado pelo rei Mohammed VI, com a medalha Grã-Cruz do Wissam Al Alaoui. Atualmente é o representante permanente de Angola junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). E tem uma única certeza: «Dentro de dez anos, Angola será uma das potências africanas».

Era jovem quando iniciou a carreira diplomática, vivia-se a luta pela independência e depois a pós-independência. Como é que vê essa época da sua vida?

Devo dizer que me sinto muito orgulhoso da vida que levei. Vai fazer já 50 anos. Pertencia a um pequeno grupo de angolanos que tinha fugido de Portugal. Estava a estudar em Portugal e fui convidado, por Franco Nogueira e o próprio professor Adriano Moreira, para exercer diplomacia nas Nações Unidas. Recusei. Eles disseram que me arranjavam uma bolsa de estudo, em Nova Iorque. Eu disse: «Nova Iorque é muito longe, eu queria na Europa». Queria estudar sociologia na Bélgica. Então, a insistência era tanta que tive uma reunião com o Agostinho Neto, o Amílcar Cabral, o nosso grupo, e disseram-me para me preparar para sair porque, ou eu aceitava e ficava tudo bem, ou então eu recusava e apanhavam-me. E foi assim que tomei a decisão de partir. Fui num carro, em direcção a Paris, via Badajoz (Espanha). A minha missão, uma vez chegado a França, era começar a fazer um inventário do número de angolanos estudantes. Depois, era organizá-los. E assim se criou uma organização que era a União Geral de Estudantes da África Negra sob Dominação Colonial Portuguesa (UGEAN), formada por estudantes angolanos, guineenses e moçambicanos.

«Sinto-me muito orgulhoso por ter colaborado para que Angola seja o país respeitado que é hoje»

Quais foram as principais dificuldades que encontrou como jovem diplomata, representante do MPLA?

A mobilidade. Usava um passaporte falso que mais cedo ou mais tarde ia expirar. O passaporte marroquino que eu possuía era o melhor porque dava mais abertura para os países ocidentais. Passávamos quase sem vistos, ou então atravessávamos as fronteiras à noite para não sermos apanhados. 

Foi embaixador em vários países. Que dificuldades encontrou pelo caminho?

A primeira dificuldade foi o facto de eu ter sido um enviado de um país que atravessava momentos particularmente difíceis. Logo a seguir à independência, fui nomeado embaixador, em 1976, com a missão de abrir Angola ao mundo e trazer o mundo para Angola. Outra das dificuldades, antes da independência, era não ter dinheiro. Em Paris, no Halles, descarregava os camiões de fruta e em troca alimentavam-me com uma sopa de cebola, que era boa (risos), e isso dava-me até à noite.

O que representou para si ser um dos rostos do MPLA?

Um orgulho. Fomos a geração da utopia. Éramos muito poucos. Aliás, há um discurso de Salazar, da altura, em que ele diz: «eles não são muitos, multiplicam-se» (risos). E é verdade. Éramos cinco ou seis, mas parecíamos dez ou vinte. Não tínhamos mais. Eu vivi do trabalho de cambalacho (trocava trabalho por comida) até que consegui arranjar um emprego. Vendíamos a nossa mercadoria: o MPLA e a luta contra o colonialismo.

Fala da importância dos estudantes. É porque os jovens fazem a diferença e são esses jovens que devem fazer a mudança?

Dizia isso antigamente. Não sei se hoje posso afirmar com tanta certeza. Os jovens de hoje, infelizmente (nem todos, mas muitos), pensam mais no estômago do que no idealismo. Nós antigamente sentíamos alguma coisa no estômago porque só tomávamos o pequeno-almoço, comíamos a sopa de cebola e comprávamos um pão, e metade do pão guardávamos para fazer açorda, à noite, para não dormirmos com fome. Mesmo assim, lutávamos pelo nosso país.

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