Ângela Mingas

«O património é uma questão de afectos»


\\ Fotografia Manuel Teixeira

Fundadora da Escola de Arquitetura da Universidade Lusíada de Angola, arquitecta, fundadora da Associação Kalu e profunda defensora da preservação do património, Ângela Mingas é ainda uma apaixonada por literatura muito por culpa de Manuel Rui Monteiro, amigo de seu pai, Rui Mingas, e com quem cresceu. Numa entrevista descontraída, Ângela Mingas falou da dificuldade de se mudarem mentalidades no que toca à questão do património, disse que o debate em torno do espaço Elinga é o mais democrático da cidade, defendeu a destruição de «cerca de um quinto» do território de Luanda para a implementação de espaços verdes e revelou ainda, já em jeito de confidência final, que um dos seus livros de eleição se chama O Conde de Monte Cristo. «Acho brutal aquela coisa das relações humanas perfeitamente falidas, onde sobrevive o amor, porque sou uma romântica incorrigível», confidenciou.

 
Estamos na Escola de Arquitetura da Universidade Lusíada de Angola, uma escola fundada por si em 2003, uma época em que ainda se falava menos de arquitetura do que se fala hoje.
Não se falava nada sobre arquitetura. A arquitetura era quase um complemento dispensável da engenharia, a Ordem dos Arquitetos quase nem existia, era um embrião de uma associação. Vivia-se um momento de pântano.
 
Que contribuição tem dado esta escola para a construção de Luanda e de Angola?
Acho que bastante. Em dez anos de arquitetura de Angola construímos um painel de aproximadamente 80 arquitetos. São relativamente poucos porque os formamos com muito rigor. O grande contributo que eles dão é terem uma visão diferente da arquitetura: estão vocacionados para a investigação e são formados em campos específicos de recuperação arquitectónica, de planeamento e desenvolvimento sustentável. 

«O Elinga é um espaço profundamente democrático, o espaço de cultura mais antigo de Luanda»

Além de professora na Escola de Arquitetura, faz parte da Associação Kalu, que luta, precisamente, pela preservação do património. Tem sido uma luta inglória?

Não, muito pelo contrário. Não temos tido é espaço público para falarmos das nossas vitórias, porque acho que o trabalho da campanha Reviver deve ser dos que têm melhores resultados em termos de associações cívicas em Luanda ? a campanha Reviver é o conjunto entre o centro de estudos da universidade e a associação Kalu. Este trabalho começou a ser feito em 2008, 2009, quando o património não existia na linguagem do quotidiano. Foi muito difícil, mas foi uma movimentação de tal maneira forte que a primeira vitória que tivemos foi termos tido o digno e o grato prazer de ver reflectidos os nossos apelos no discurso Presidencial de encerramento do ano. É tremendo porque quando um Presidente da República se pronuncia sobre um determinado assunto no seu discurso de final do ano é porque esse assunto existe. A segunda grande vitória que tivemos foi termos tido o apoio de toda a população da zona do centro histórico, principalmente a população que vive no património de escala menor, como os sobrados e as casas típicas ? é esse o património que está em risco. Para além de um ou outro edifício em particular, sendo que talvez o mais emblemático seja o Elinga.
O património é uma questão de afectos. E a maior vitória de todas talvez tenha sido conseguir expandir esse discurso para além de Luanda.

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