Fundação Dr. António Agostinho Neto

Irene Neto «A Fundação luta contra a amnésia e contra o silêncio»


\\ Fotografia Manuel Teixeira

No mês em que se celebra o 11 de Novembro, data da fundação da Nação Angolana, fomos falar com Irene Neto, filha de António Agostinho Neto. Uma oportunidade para saber junto da Presidente do Conselho de Administração da Fundação Dr. António Agostinho Neto que trabalho a instituição tem desenvolvido para a divulgação da obra do primeiro Presidente de Angola, dentro e fora de portas, e sobretudo nas escolas angolanas. Ocasião também para viajarmos até aos anos de luta pela independência nacional, em que Agostinho Neto e a família levaram uma vida itinerante com paragens por Portugal, Marrocos, Cabo Verde, Gana, Guiné Conacri, Congo Léopoldville, Congo Brazzaville e até Tanzânia. «Nós vivíamos na, da e para a política», recorda Irene Neto. «Foi um périplo de partidas e chegadas, sem tempo para criar muitas raízes. Éramos refugiados políticos, exilados, freedom fighters, sempre gente em terra alheia, com Angola no coração».

 

O 11 de Novembro é especialmente importante para a filha do primeiro Presidente do país?

Com certeza que sim. O 11 de Novembro é uma marca indelével na nossa história enquanto Nação, país, povo e cidadãos. Foi a fronteira entre o antes e o depois, o fim da condição de colónia, do estatuto de refugiado político, de indígena, de assimilado, do exílio, da clandestinidade, das prisões, da luta de libertação nacional, da guerrilha e a aquisição de uma nacionalidade própria, reconhecida pela comunidade internacional. A emancipação enquanto povo teve e terá sempre um sabor muito particular, gravado na nossa memória para sempre. Cada 11 de Novembro que passa é um momento de recordar o que impeliu um povo inteiro a lutar pelo seu direito a decidir o seu próprio destino. É o momento para prestar tributo a todos os que lutaram por essa causa, em especial àqueles que deram as suas vidas para tal.

O 11 de Novembro é o dia da independência e da liberdade. A independência de Angola é a conquista da nacionalidade e da cidadania. A liberdade é o oxigénio para tudo. Uma sociedade só respira se for livre. A democracia só é possível com liberdade. A economia de mercado só cresce com liberdade.

 

Angola de hoje é Angola com que Agostinho Neto sonhou e pela qual lutou?

Angola conquistou duramente a sua independência política, conservou a sua integridade territorial e soberania. A paz tardou bastante em chegar mas é hoje um fator de promoção da harmonia entre os angolanos. As orientações ideológicas adaptaram-se aos ventos da história, as conjunturas geopolíticas mudaram e não são as mesmas que no tempo de Agostinho Neto. Na Angola de hoje existem desigualdades sociais e uma provisão de serviços sociais essenciais aquém do necessário que necessitam de ser resolvidas, política e economicamente.

 

A Fundação Dr. António Agostinho Neto tem-se queixado do esquecimento relativamente ao primeiro Presidente de Angola nas escolas. Como está esta situação e o que tem sido feito para a contrariar?

É um facto que tem preocupado sobremaneira a Fundação e a família de Agostinho Neto. De tal forma que os objetivos estatutários fundacionais da nossa instituição orientam, em primeiro lugar, para a promoção da pesquisa e divulgação da vida e obra do Dr. Agostinho Neto. Tal desiderato tem sido concretizado pela nossa produção de material bibliográfico, audiovisual, pelos nossos seminários, workshops, conferências e palestras junto às diversas comunidades do país. Temos trabalhado com o Executivo de Angola através dos Ministérios da Educação, do Ensino Superior e da Cultura no sentido de promover o ensino sobre as figuras históricas nacionais, em particular o nosso primeiro Presidente da República. Temos criado parcerias para facilitar e promover a introdução e o estudo da poesia netiana nos currículos académicos. Como todos os outros povos do mundo, temos de nos orgulhar das nossas referências e transmitir às novas gerações o seu legado. Isto não se fará automaticamente. É necessária uma atenção particular à transmissão dos valores patrióticos, da nossa idiossincrasia, da nossa história. O mundo globalizado e as novas tecnologias podem facilmente monopolizar as atenções da juventude a partir de uma certa idade pelo que é na escola primária que as bases devem ser ministradas. O ensino do hino nacional, o respeito pelos símbolos nacionais, o amor à Pátria, o sermos «nós mesmos» como dizia o poeta Agostinho Neto.
A Fundação luta contra a amnésia e contra o silêncio. A história da luta de libertação nacional e dos primeiros anos da independência têm de ser contados e ensinados nas escolas. A poesia de Agostinho Neto tem de ser lida e ensinada.
A angolanidade deve ser fundada no conhecimento profundo da história de Angola. Só se ama o que se conhece. E a luta de libertação foi um processo decisivo para a história de Angola. Os primeiros anos de independência foram marcantes para o rumo de Angola e de África.

«A liberdade é o oxigénio para tudo. Uma sociedade só respira se for livre»

 

A Fundação Dr. Agostinho Neto tem, na realidade, desempenhado um papel fundamental na divulgação da obra de Agostinho Neto além-fronteiras com a tradução dos seus livros em diversos idiomas. Que interesse têm manifestado além-fronteiras pela vida e obra de Neto?

O interesse e o conhecimento da vida e obra de Agostinho Neto além-fronteiras tem sido por vezes até uma vergonha para nós. Explico-me: conhece-se por vezes mais Agostinho Neto além-fronteiras do que no nosso país. Existem muitas academias a estudar Agostinho Neto, Angola e a sua história, a fazer investigação e a produzir estudos. Um país como Angola suscita interesse e o mesmo leva a pesquisar a sua história e figuras emblemáticas. Por outro lado há mais pessoas instruídas além-fronteiras do que no país. Ainda temos a batalha do analfabetismo por superar, a escolarização por consolidar e as reformas educativas por finalizar. Todas estas adequações levam o seu tempo. Daí ser importante não perdermos de vista a importância de contributos além-fronteiras na divulgação e conhecimento da vida e obra de Agostinho Neto. Não nos esqueçamos de que cada vez que falamos em Agostinho Neto é a bandeira de Angola que está a ser erguida, cá dentro ou lá fora.

 

Para além de PCA da Fundação Dr. António Agostinho Neto, é deputada. Herdou do seu pai o gosto pela política?

É possível.

 

Falavam de política em casa?

Era impossível não se falar de política em casa quando toda a nossa vida girava em torno da política. Nós vivíamos na, da e para a política. Os países onde nos encontrávamos, por maior ou menor período de tempo, eram em função do acolhimento político do MPLA. Quando nasci, em Julho, vim à luz em Lisboa e em Setembro já estava a caminho de Cabo Verde onde se encontrava deportado o meu pai na ilha de Santo Antão. Em Outubro do mesmo ano, despacharam-nos de volta para Lisboa com ordem de prisão para o meu pai que ficou internado na prisão de Aljube. Dez meses mais tarde, fugíamos de barco para Marrocos. E assim sucessivamente. Foi um périplo de partidas e chegadas, sem tempo para criar muitas raízes. Éramos refugiados políticos, exilados, freedom fighters, sempre gente em terra alheia, com Angola no coração.
A minha mãe e os filhos, acompanhámos sempre o meu pai até termos de assentar em função dos estudos, os quais foram em parte feitos por tele-ensino, isto é, como ensino à distância (não existia internet na altura). Isso fez com que passássemos com ele pelos diversos países onde se encontravam os militantes do MPLA, em África e na Europa. Mesmo enquanto crianças, tivemos de lidar com o facto de sermos diferentes dos nossos colegas. Tinhamos consciência de estarmos em terras que não eram as nossas, de falarmos línguas que não eram as nossas, de estudarmos histórias que não eram as nossas. Aprendemos a ouvir, a calar, a estar atentos mas também a intervir pelos nossos direitos. A inocência da meninice já era temperada com recomendações para nos proteger. Não eram poucos os fardos a carregar: a condição política e económica de colonizados e refugiados, a cor da pele, o facto de sermos filhos de um dos líderes revolucionários mais procurados pelos serviços secretos e alvo das disputas de liderança no seio do MPLA, as contradições e matizes raciais pelo facto de termos uma mãe branca em África e um pai negro na Europa, não esquecendo a falta do apoio das famílias mais alargadas que não estavam connosco.
As conversas entre o meu pai e outros militantes do MPLA, em casa, quase sempre, nas reuniões a que assistíamos aos domingos quando ele estivesse presente nas bases de militantes, marcaram a nossa infância. Estivemos mais tempo juntos nos Congos. Quando a guerra de libertação ganhou um novo impulso com a abertura da Frente Leste, mudamo-nos para o Oceano Índico, para a Tanzânia e então as ausências do meu pai intensificaram-se. O interesse mais apurado pelos acontecimentos políticos ocorreram após o 25 de Abril de 1974, época da nossa adolescência.

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