Isaac dos Anjos

«Pensamos numa região metropolitana para a zona de Benguela»


\\ Fotografia Manuel Teixeira

O brilho nos olhos de Isaac dos Anjos quando, numa sala do Governo de Benguela, nos mostra as plantas de alguns dos projetos em curso na província que dirige deixa antever algum do entusiasmo com que tem enfrentado este novo desafio de dirigir uma das províncias estratégicas de Angola. Para além do caminho-de-ferro, que assume cada vez maior importância nacional e internacional, e da reabilitação do Porto do Lobito, com a construção do Terminal de Contentores e do Terminal Mineiro, em Benguela está a construir-se uma refinaria, há avanços importantes na área da saúde e da energia, apostas fortes na agricultura, grandes investimentos em novas urbanizações e o desejo de unir o Lobito, Catumbela, Benguela e a Baía Farta numa região metropolitana. «Para efeitos de planeamento, poupamos recursos e fazemos com que todos pensem em grande», afirma o Governador, que diz ainda ter o sonho de transformar a baixa do Lobito numa nova Veneza ou Xangai.

«Projectámos Benguela Sul, uma zona em que vamos ter, para cada família, mil metros quadrados»

Chegou ao Governo de Benguela em Maio de 2013. Está prestes a completar um ano como Governador de Benguela. Que balanço faz?

Foi um ano de grandes desafios. Rico em experiências. Sendo a mais importante delas a relação humana (com os colaboradores). Foi necessário investir num mestrado para executivos, com o intuito de aprofundar, nos 30 elementos da equipa, a capacidade de visualizar a importância das empresas e do investimento privado no desenvolvimento da região de Benguela, para não ficarmos exclusivamente à espera do investimento público. Aprender a mobilizar interesses privados para uma causa que se quer grandiosa. Temos aproveitado a situação de Benguela, a situação geopolítica, se quisermos, pelo corredor do Lobito. Porque, se o corredor de Lobito vai ser uma importante passagem internacional, faz sentido que comecemos a pensar que a maior parte do nosso desenvolvimento podia ser conseguido com o sector privado. Depois estamos numa região que podemos considerar toda ela urbanizada. Temos quatro cidades seguidas, Lobito, Catumbela, Benguela e Baía Farta. Admitindo que todas estas cidades constituem hoje administrações municipais, para um governador a intervenção ficaria muito complicada. Então pensamos numa região metropolitana. Para efeitos de planeamento, poupamos recursos e fazemos com que todos pensem em grande.

 

Quais são as vantagens competitivas de Benguela relativamente às restantes províncias?

Benguela encaixa-se bem no centro e está animada pelo litoral. Os caminhos-de-ferro de Benguela foram concebidos, de início, para evacuar os minérios do interior de África. Todo o interior angolano, cruzado pela linha-férrea de Benguela, é naturalmente uma continuação da própria Benguela. Há aqui um benefício nos dois sentidos. De Benguela para o interior e do interior para Benguela. Se assim admitirmos e se nos posicionarmos, não como uma pequena região, mas como uma região com responsabilidades que vão até aos países vizinhos, podemos beneficiar da região Norte e da região Sul de Angola, do mar e do interior. E podemos também, tendo em perspetiva o nosso crescimento, considerar as províncias vizinhas mercados. E as províncias vizinhas têm aqui um interesse directo, quer para exportação de produtos, quer para importação, nas portas do mar do Lobito. Benguela também goza de uma diversidade climática extraordinária, que vai desde o mar ao planalto, e isso é um valor acrescentado. Há ainda um outro valor adicional, que é o ter tradição de exportação. Benguela já foi exportadora de sisal, de algodão, das indústrias de pesca, pode perfeitamente recuperar essa sua tradição. Tem tradição industrial. Teve várias indústrias agrícolas, indústrias derivadas. O tecido empresarial de Benguela já foi muito grande. Há aqui um campo aberto para que haja industrialização. Benguela não precisa de rivalizar. Precisa é de se manter permanentemente activa, e atenta ao desenvolvimento dos seus vizinhos para não perder a sua importância no contexto geral.

 

Quais são os grandes projetos que estão a ser desenvolvidos?

Benguela tem vários projetos em curso e de grande envolvimento financeiro. Teve a reabilitação do caminho-de-ferro, tem a revitalização do porto de Lobito ? dentro do porto, a construção do Terminal de Contentores, a construção do Terminal Mineiro, a ampliação do cais de atracação dos navios e a reparação desse cais. Tem em curso a construção da refinaria, um projeto falado há 20 anos mas que finalmente está em prática. Já há trabalhos em curso para a construção do porto de atracação para a refinaria.

Temos também no sector da saúde projetos importantíssimos. Temos o Centro Internacional de Oftalmologia em Benguela, com 500 mil consultas realizadas, nestes últimos sete anos, e com um número importante: 33 mil pacientes voltaram a ver. E estamos muito seriamente empenhados em construir o nosso Hospital de Oncologia. Temos dois Centros de Hemodiálise, um em Benguela e um no Lobito. Vamos agora começar a construir hospitais para o Lobito.

Essa perspetiva do crescimento urbano levou-nos a planear o crescimento da zona nova de habitação, que vai ficar entre a região do Biópio e a região do Culango. Essa zona está agora a ser desminada e vai-nos permitir encontrar mais cerca de quatro mil hectares para o desenvolvimento do Lobito. Para essa zona também estamos a levar um parque industrial para indústria moderna, vocacionada para a exportação.

 

E na baixa do Lobito?

Se tudo correr bem, se conseguirmos implantar aquela zona industrial, a parte velha do Lobito, onde hoje há várias indústrias que estão fechadas, e onde há uma super população, que poderíamos transferir lá para cima, transformaríamos a zona numa zona de densificação, com edifícios mais altos, com canais, como temos Veneza, como temos Xangai. É uma possibilidade que nos permite sonhar.

Há então lugar para o turismo?

O turismo pode ser pensado na perspetiva em como vamos dar melhor vida e condições de trabalho aos operários do futuro em Benguela.

O problema é que a velha Benguela está arrimada mais à margem esquerda do Vale do Cavaco. Ela própria já foi construída em cima de terrenos agrícolas, o que fez com que sempre tivesse uma dificuldade de crescimento no seu conjunto de cidades: Benguela, Catumbela e Lobito. Porque a parte agrícola, da grande açucareira, ocupava vastas extensões de terreno agrícola. Mas hoje passamos dos 150 mil habitantes para quase 800 mil. Portanto, somados, Benguela, Lobito, Catumbela e Baía Farta, já vamos em 1 milhãos e 500 mil habitantes. E os recursos da população são parcos e a população prefere ainda a construção da habitação unifamiliar. Isso levou-nos a ter que abrir novas áreas. Para estancarmos a confusão desordenada, com base nas tabelas de cálculo do número de habitantes por mil metros quadrados, chegamos à conclusão que hoje temos cerca de 10 famílias por cada mil metros quadrados, vivendo em condições muito precárias. Então projectámos Benguela Sul, uma zona em que vamos ter, para cada família, mil metros quadrados. Estamos a abrir as vias de acesso para quatro mil hectares. Vamos incorporar zona industrial, indústrias domésticas, com oportunidades directas para o empresário poder estabelecer os seus negócios. E uma zona habitacional mista, onde o comércio é implantado nas zonas onde se vive. É um conceito em que a cidade vive todo o dia. Há espaços de restaurantes, de comércio, e tem o espaço da habitação. A cidade velha tem 410 hectares e a zona para as novas urbanizações de Benguela tem 4 mil hectares. É muito maior!

«No interior de Benguela, nas antigas fazendas do sisal, vamos produzir uva de mesa»

E o que é que acontecerá à Benguela velha?

A Benguela velha não morre. Estamos neste momento a fazer um levantamento de todos os espaços com edifícios a ruir. Estes espaços vendidos em hasta pública vão atrair investidores para construírem prédios.

Na cedência de novos terrenos para a construção de habitações unifamiliares os projetos terão de ser baratos porque irão destinar-se à classe média, não a uma classe rica. A Benguela velha precisa disso. Não é de chalés ou mansões.

Para isso temos uma outra zona, que está planeada, e ali sim vai poder construir-se habitação alternativa e mais cara.

E o que podemos fazer para tornar Benguela mais bonita? Temos projetos para construir marinas, para reabilitar o museu e para a requalificação dos pontos históricos. Isto impõe outro tipo de desafio ainda que é o desafio financeiro. Mas ao mesmo tempo gera uma oportunidade de investimento como em mais nenhuma zona de Angola.


A agricultura é uma aposta?

Primeiro temos de salvaguardar a questão patrimonial: os terrenos dos Vales de Catumbela e do Cavaco estão a ser invadidos pelo betão. Temos que atacar as razões que levariam a uma perda maior de terra para a construção. Depois produzir banana, por exemplo, e apostar nos mercados antigos, os europeus.

No interior de Benguela, nas antigas fazendas do sisal, vamos produzir uva de mesa, o melhor mercado para uva de mesa é a Europa e são os Estados Unidos. Vamos fomentar a cultura do algodão, temos condições de produção de café arábico, mas estas culturas são ainda associadas a culturas de mão-de-obra intensiva. Convencer as pessoas de que hoje há tecnologias que tornam o trabalho menos pesado leva o seu tempo.

Assim ajudaremos a reduzir a pobreza, que é o objetivo, mas de modo participativo. Depois as indústrias podem ser instaladas. Também estamos a fazer a dinamização de um projeto para implantar um viveiro para Palma para que possamos fazer a reconversão dos palmares da Canjala para a zona litoral.

«Todos os dias é preciso acrescentar um tijolo, um bloco, por isso corro muito para deixar muito feito»

Que província quer deixar aos benguelenses?

Com o mesmo entusiasmo que lhe estou a apresentar todos estes projetos, estas dificuldades, umas em curso outras por acontecer, com todo esse entusiasmo vou deixar Benguela quando chegar a hora. O nosso mandato eventualmente vai até às eleições de 2017. Pode não ser prolongado mas o importante é que os projetos possam acontecer. Todos os dias é preciso acrescentar um tijolo, um bloco, por isso corro muito para deixar muito feito.

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