Troufa Real

«Eu não faço arquitetura. Não faço construção civil. Faço obras de arte»

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia Manuel Teixeira

Arquiteto, católico e maçom. Nesta entrevista revela-se a pessoa que traz no coração, angolano, as cicatrizes dos tempos de juventude vividos em Lisboa. Sendo impossível saciar, de uma só vez, a curiosidade sobre a vida e visão deste homem, foi-nos permitida a realização de dois encontros. O primeiro na Casa do Desportista em Luanda, Angola, local onde reside e trabalha a maior parte do tempo, na terra que o viu nascer e crescer e de onde tirou ensinamentos para o resto da vida. E um segundo na Fundação Troufa Real, em Lisboa, Portugal. Lugar que alberga a sua morada fora de Angola, onde tem também um gabinete de arquitetura e um vasto espólio sobre Luanda. É lá que diz ter o seu refúgio. Antes desta conversa o próprio quis deixar claro: é um ser cerebral, organizado, sentimental, perdido de amores e perverso.
 
O que significa para si ter nascido e crescido em Angola?

Um orgulho. Nasci aqui, no Hospital Maria Pia, a 18 de Março de 1941, e aqui passei a infância. Éramos três irmãos. O meu pai era electricista na câmara e tinha de acender e apagar as luzes da cidade, era um elemento muito importante porque quando era preciso «apagar» uma casa ou uma zona para amores proibidos, vinham ter com ele. A minha mãe era uma negra. Uma referência para mim, como todas as mães. Esta era, e é, uma terra de encantos onde existe o sonho e a ilusão da liberdade.
 
Esteve presente quando se fez o primeiro planeamento da cidade de Luanda. Como viveu esse acontecimento?
Estudei arquitetura, mas queria ser pintor. Mas ser pintor nas famílias de classe média baixa, como é o meu caso, era desprestigiante. E depois não se ganhava a vida a pintar, então meteram-me em arquitetura. Antes passei pelas Belas Artes onde fui um insurrecto e um indisciplinado, preso seis vezes, entre ?59 e ?61, tempos conturbados. Mas depois resignei-me. Antigamente os bolseiros ficavam obrigados a trabalhar na entidade que os patrocinava durante os anos em que tivessem a bolsa, para descontar. E eu entrei numa das melhores universidades porque o meu pai era funcionário da câmara, daí a minha bolsa ser desta instituição. Nessa altura, o governador Santos e Castro sabia que eu era militante do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), (sempre fui!) e pôs-me no gabinete de urbanização de Luanda, onde se faziam planos muito controlados, e bem, no meu ponto de vista, porque para se fazer o plano diretor de uma cidade é preciso ter responsabilidade estratégica e ao mesmo tempo humana, que quase nos obriga a ter de conhecer as pessoas. Acabei por ser muito cedo o diretor do gabinete de urbanização, por isso estive a coordenar.
 
Como vê Angola hoje?
Vejo Angola como um país moderno. Um país livre.
 
Como projectaria a futura Angola?
Com edifícios muito altos. No mínimo com 40 andares. Com uma construção o mais contemporânea possível, com novas tecnologias adaptadas ao clima. Sem problemas de estacionamento porque as pessoas andariam em transportes verticais como os elevadores. Eu sou defensor de que a capital de Angola tem de sair de Luanda. Para salvar Luanda histórica, para dar melhor qualidade de vida às pessoas e para fazer o desenvolvimento nacional no interior. A capital deveria, também, apresentar uma situação geográfica e geoestratégica porque uma capital política tem que ter clima próprio, uma unidade e temperatura própria. Luanda tem uma percentagem de humidade elevadíssima que obriga a ter aparelhos de ar condicionado, se se quiser ter máquinas fotográficas ou arquivos. Depois porque perto de 40 a 50 por cento da população de Angola vive em Luanda, o que é mau. Por isso desenhei a nova capital de Angola, chama-se Angólia. O Pepetella teve o mesmo sonho.
 
O presidente angolano, José Eduardo dos Santos, sabe dessa proposta? Como reagiu?
Sim, sabe. As reacções é que nunca se sabem. Ele é um presidente do silêncio. É um homem muito especial. Para mim é o melhor estadista do mundo. Porque o mundo está rodeado de patetas. Estamos a falar de um homem do silêncio que soube perdoar. Perdoar sem usar a palavra perdão. Chamou os inimigos todos da nação, os que queriam a guerra, deu-lhes lugares, deu-lhes prestígio e dignidade. E deu-lhes dinheiro. Todos tiveram assento na Assembleia Nacional, não prendeu ninguém. Como o Mandela, ele também engoliu sapos. Tudo pode ser visto de outra maneira, mas a verdade é que foi a forma de não ter julgamentos populares, nem fuzilamentos. A isto chama-se diplomacia!
 
Diz ser um grande defensor da liberdade. O que é que ela representa para si?
Quando pensamos na liberdade, pensamos em guerra, em confusão, em meia dúzia de loucos, de gente marginal, que não sabe o que faz. Mas a liberdade é um dos atos mais inteligentes do Homem. A liberdade é tão importante como a água para a nossa vida. Só é preso quem quer. Porque mesmo na prisão eu fui livre. Nunca me senti amordaçado.
 
Diz que Lisboa é o seu refúgio, porquê?
Porque vivi nestas ruas. Porque foi aqui que encontrei a liberdade, ainda no tempo da ditadura. Porque nós somos sempre livres quando queremos. Aqui fui preso seis vezes e de cada vez que era preso ficava mais feliz.
 
Por que foi preso?
Porque andava ligado ao MPLA. E orgulho-me muito desse momento, em 1961.
Depois por simpatia, e até dei lições curiosamente de física e matemática a um guarda prisional que se tornou um grande amigo meu.
 
Como define a sua arquitetura?
Eu não faço arquitetura. Não faço construção civil. Faço obras de arte. Por exemplo: o único monumento que existe em Lisboa, do Salgueiro Maia, foi desenhado por mim. Eu não faço arte para mim. Fazer um edifício para mim é respeitar as pessoas e os seus valores.
 
Considera-se um arquiteto moderno?
Considero-me contemporâneo, não moderno. Porque não gosto do movimento moderno. São pessoas que acham que o pensamento moderno é um pensamento racionalista. Gosto mais das surpresas. Gosto de diariamente saber para onde não vou. Gosto de descobrir. Gosto da aventura. Daí não me considerar moderno. Ter regras é uma castração. Por isso, considero-me um anti-moderno, com muito gosto racional. E contemporâneo, porque hoje a contemporaneidade tem uma grande diversidade, principalmente criada por uma nova geração que dizem ser gerações sem partido.
 
Como vê a relação entre os dois países: Portugal e Angola?
É óptima! Quem descer aqui ao Bairro Operário, verá a relação extraordinária que há entre o senhor David, proprietário do restaurante, e os angolanos que estão lá a conviver. Como encontra a mesma situação em Luanda. Uma coisa é a política, que nada mais é do que um mundo imaginário. Os políticos estão todos convencidos de que são eles que mandam no mundo. Não! São as pessoas.
 
Sente-se mais filho de Angola ou de Portugal?
Sou filho de uma negra de panos e de um homem branco humilde. Resultado: sou um luso-angolano com orgulho. Quando estou em Portugal sinto que sou um angolano mas que sou também português. Quando estou em Portugal defendo os angolanos. Quando estou em Angola defendo os portugueses.

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