Paulo Pompolo

«A grande oportunidade no Uíge é a agricultura»


\\ Fotografia Manuel Teixeira

«A grande oportunidade no Uíge é a agricultura»
 
Nasceu numa aldeia do Uíge, a cerca de 150 quilómetros da capital da província. Filho mais velho de cinco irmãos rapazes, quando um coordenador da JMPLA o quis levar para a cidade do Uíge, a sua mãe mostrou alguma resistência. Iria ficar sem o suporte da família. Foi necessária a intervenção de um pastor para que Paulo Pompolo pudesse ir para a cidade do Uíge. Iniciava-se, assim, uma carreira de sucesso na política. Depois do Uíge, foi para Luanda, primeiro como chefe de secção, depois de departamento, de seguida como segundo secretário nacional e finalmente como primeiro secretário nacional da JMPLA. Esteve lá durante sete anos até ter sido transferido para o Parlamento. Mas o Presidente da República tinha outros planos para ele. Em Outubro de 2009 chamou-o para o nomear Governador do Uíge. Voltou à sua terra e iniciou uma série de trabalhos e reformas, da agricultura ao turismo, passando pelos transportes e pela habitação, que pretendem colocar o Uíge no mapa das províncias mais importantes de Angola.
 
Quando chegou ao Governo da província há quatro anos, disse que as suas prioridades seriam a reabilitação da pista do aeroporto, do Palácio da Justiça, do Antigo Palácio do Governo e o início da construção de mais quatro mil habitações na centralidade de Quilomosso. Como estão estes projetos?
Foram realmente definidas essas prioridades. O aeroporto, porta de entrada para os investidores, foi inaugurado no dia 29 de Maio deste ano. Esperamos que as operadoras aéreas criem as condições para que o aeroporto comece a funcionar normalmente.
O Palácio da Justiça era o local onde se concentravam a maior parte dos serviços para a identificação do cidadão; não poderia continuar nas condições em que se encontrava na altura. Decidimos que era necessário intervir. Reabilitámo-lo.
Aqui ao lado do Governo Provincial existe o antigo Palácio do Governo, construído de raiz no tempo colonial. Os mais velhos dizem que o poder da província está naquele quintal. Hoje, estamos quase a concluir os trabalhos da casa protocolar.
Finalmente, os 4500 apartamentos de Quilomosso resultam de uma iniciativa presidencial, que visa resolver o problema de habitação que o país vive. São uma forma de acomodarmos bem os nossos quadros, de os motivar a virem para o interior. Na verdade, não serão apenas 4500, mas 7000 apartamentos. Já temos 1010 apartamentos praticamente concluídos. Estamos a entrar na segunda fase para mais 2500 apartamentos. Temos que ultrapassar o problema das infraestruturas básicas, do esgoto, da água, da energia. Estamos a trabalhar nesse sentido para ver se no próximo ano se começam a entregar os primeiros apartamentos.
 
Disse que não há desenvolvimento sem energia e sem água. Há desenvolvimento sem estradas?
Também não, porque se não houver estradas em perfeitas condições, não se consegue escoar a produção. Quando aqui chegámos, encontrámos três ou quatro municípios com ligação à capital da província e com estradas asfaltadas. Hoje, estamos a falar em mais ou menos 13 municípios, dos 16, com estradas asfaltadas.
 
E o comboio?
O comboio é uma discussão que consta nas preocupações do Ministério dos Transportes no âmbito do projeto do caminho-de-ferro do Norte de Angola.
Neste momento estamos na fase de prospecção das minas de Mavoio, minas de cobre. Estamos a trabalhar no sentido de saber como vamos escoar a produção, porque não podemos continuar a fazer o escoamento com camiões. E, por isso, mais tarde ou mais cedo, teremos que decidir qual a intervenção no caminho-de-ferro.
 
Mudaria muita coisa na província?
Mudaria. O caminho-de-ferro reduz os custos da transportação de mercadorias. Estamos numa zona agrícola. No tempo colonial produzíamos café em grandes quantidades, que renderam recursos financeiros para construir alguns bairros de Luanda, como o Bairro de Alvalade e parte da Vila Alice. Infelizmente, com a guerra, a produção decresceu muito e só em 2010 é que começámos a reativar a produção de café. O ano passado, produzimos mais de quatro mil toneladas. Este ano, prevemos atingir entre sete a oito mil toneladas.
 
No II Fórum de Oportunidades de Investimento disse que existem elevadas oportunidade de negócios no Uíge. Quais são essas oportunidades?
Uma das primeiras é a agricultura. Estamos numa zona com uma bacia hidrográfica muito extensa, com muitos rios, com chuva nove meses por ano, e a agricultura só se faz com água. Sabemos que nas zonas do Songo, Ambuíla e Bembe podemos produzir citrinos. Mas também é possível produzir banana e batata na zona de Negage. A indústria madeireira é outra oportunidade, porque temos florestas de qualidade. Matéria-prima de que precisamos para a construção civil. Temos que mandar vir portas e janelas de fora do país quando poderíamos ter essa capacidade de produção aqui. O dinheiro ficaria cá, daríamos emprego aos nossos jovens e os impostos iriam reforçar a nossa capacidade financeira.
 
Quais são as outras oportunidades para além da agricultura?
O sector mineiro. A província tem diamantes e outro tipo de minerais que não existem no mundo. Temos que ter sempre em conta que estamos ao lado de um país vizinho que tem mais de cem milhões de habitantes.
Há muitas oportunidades no domínio do turismo, há muitas localidades que ainda não foram descobertas. Precisam de ser identificadas, catalogadas. Há oportunidades no sector hoteleiro. Temos três hotéis em condições que hoje não respondem à demanda. Nas festas da cidade estavam aqui mais de 400 pessoas, algumas que vieram para a Expo, outras que vieram para o Fórum Empresarial. Tivemos que recorrer a casas de privados, porque não havia lugar para todos. Estamos à espera de três hotéis com cerca de 400 a 450 camas que vão minimizar esta situação. Mas ainda temos espaço para investir no domínio hoteleiro e na restauração ? quem chega aqui às 22h00 não tem onde comer e, por isso, essa é uma área que poderá ser aproveitada pelos investidores.
Também já desafiei muita gente a abrir uma rede de lavandarias. Todos nós, governantes, professores, pastores, bispos e outros, no fim de semana mandamos malas de roupa para Luanda para lavar. Se tivéssemos aqui essa rede, resolveríamos o problema.
 
O que é que a província está a fazer para atrair investimento?
Quase todos os dias há empresas a proporem investimentos. Orientámos os municípios no sentido de prepararem em cada um cerca de 40 mil hectares só para atender a estas questões. O terreno é cedido pelo Governo com um custo muito simbólico e também apoiamos o próprio investidor noutros aspetos que ele ache que são difíceis de resolver no terreno. Por exemplo, chega a altura de fazer a ligação do rio para o local e há dificuldades, então metemos equipas para ajudar. Porque estes tipos de investimentos são pequenos relativamente aos benefícios que trazem, e que são a criação de emprego e o pagamento de impostos na província. Há comunidades que não tinham escolas e os investidores fizeram-nas. E os filhos dessas comunidades são aproveitados para o emprego.

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