Big Nelo

«Tive a sorte de ter um avô de quem realmente me orgulho»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia © PMC

KizombaRapRythm e Blues… o cantor e compositor angolano, Big Nelo, ou Nelo para os amigos, tornou-se uma lenda em Angola. Nasceu no Namibe, passado um ano partiu para o Lubango e mais tarde para Luanda, onde cresceu. Mas foi na Alemanha que iniciou a carreira, na onda do Rap. Foi um dos fundadores do grupo SSP. Em 2005 lança-se a solo e, hoje, continua a ser um dos rostos promissores da música angolana. É um ícone. Dizem que sim! No seu caminho já leva 25 anos de música e muitos concertos. O álbum Karga foi a viragem na sua história, depois do SSP. Da infância passada com o avô Mendes de Carvalho guarda boas recordações e algumas lições de vida, para além de uma enorme gratidão.  E, agora, ei-lo aqui, no sossego da musicalidade, falando de si.


Big Nelo ou Emanuel de Carvalho Nguenohame?
É uma mistura das duas coisas. Chamo-me Emanuel, mas a maior parte das pessoas da minha infância chamam-me Nelo, e os fãs Big Nelo.

Qual gosta mais?
Para mim é indiferente. Nelo é o mais pessoal.

Nasceu no Namibe. Lembra-se do tempo em que lá viveu?
Nasci no Namibe acidentalmente, porque os meus pais estavam lá. Na altura, o meu falecido pai estava lá e acabei por estar lá um ano. De lá fomos para o Lubango, e depois acabei por crescer aqui em Luanda. Por isso, não me lembro nada dessa época no Namibe.

É cantor e compositor. Onde começou a carreira?
Comecei a minha carreira na Alemanha. Na altura, era o tempo que surgia aquela febre do Rap americano, e acabei por ter uma influência muito grande, por ser uma música mais ocidental. Na altura em que estive na Alemanha havia o lado capitalista, socialista, após a queda do Muro de Berlim. Acabei por tocar numa onda mais de Rap, lancei um grupo, o SSP, em Angola. Durou até 2005. Depois comecei a minha carreira a solo.

Mas revelou-se muito mais por sua conta e risco. Hoje, é um ícone da música moderna nacional…
Diz-se que sim. Acabo por ser, modéstia à parte. Estou aqui a quase 100%. São 25 anos de um sucesso de altos e baixos, mas sempre presente.

Já fez sucesso com cantores e grupos: Os Warrant B, O2, Os Mess, Kalibrados, C4 Pedro… tornou-se uma lenda. «A lenda nunca morre?» …
A dada altura os meus fãs atribuíram-me um nome: Lenda. Acabei por fazer uma música - A lenda nunca morre. Acredito sempre que quando o artista completa duas décadas acaba por revelar outras partes, que o torna um bocadinho mais intemporal. A música acaba por ser ouvida, mas as pessoas acabam por gostar de ti, não só pela música, mas também enquanto pessoa. Quando se está nessa fase, com mais de 20 anos de carreira, as pessoas fazem com que a tua carreira se estenda por muitos mais anos, porque elas gostam de ti e não só da tua música. É isso que acontece. O que me faz ser uma lenda é o facto das pessoas, independentemente de gostarem da minha música, gostarem do Big Nelo.

Em 2014 recebeu um prémio de homenagem da Rádio Nacional Angola (RNA). Quer-nos falar sobre isso?
Foi por causa dos mais de 20 anos de carreira. Foi o culminar da história. Foi emocionante. Vemos o trabalho ali reconhecido, não porque tenha sido um artista que esteja atrás de títulos, porque não adianta teres vários prémios se depois as pessoas se esquecem de ti. Importa é os fãs gostarem e continuarem a seguir-me. Os prémios são bonitos, gratificantes, mas nunca olhei os prémios como um objetivo.

Há algum que o tenha marcado mais?
Talvez no início da carreira, enquanto SSP, os prémios foram mais cativantes. Era aquela euforia. Depois disso comecei a dar valor a outras coisas, não propriamente aos prémios. Enquanto carreira a solo, em Angola, Portugal, Cabo Verde, sempre olhei os prémios como uma recompensa e não como uma meta.

Porque o tratam por «mister karga»?
Porque em 2009 lancei um álbum, que tem como título Karga. É uma compilação de alguns anos de carreira. Acabei por ser a «Karga», de peso pesado em pessoa, e a música ficou para sempre. Eu marco um álbum, assim como marco uma época. Acredito que Karga foi o meu maior sucesso, depois do SSP. Foi a viragem.

«O meu avô foi sempre um pai para mim. Olhei-o sempre como um ídolo»

Big Nelo, a família tem um papel importante para si. Como era a convivência com o avô Mendes de Carvalho? 
Sempre foi muito boa. Eu não cresci com o meu pai, perdi-o aos quatro anos. Passei uma boa parte da minha infância e da minha adolescência com o meu avô. Ele foi em 1985 como embaixador de Angola para a antiga República Democrática Alemã (RDA), e eu fui com ele e mais um outro neto. Fiquei lá até 1991. O meu avô foi sempre um pai para mim. É daquelas pessoas que eu olhei sempre como um ídolo.

Lembra-se da infância com ele?
Lembro de quase tudo. Era uma pessoa com muitos princípios, rígida, não bebia, não fumava. Essa educação sempre tive em casa, essa pessoa sempre foi a base da família, uma espécie de ‘Soba’. Era inteligente, era uma pessoa acessível a todos, sábia e dava muitos conselhos. Aprendi muito com ele. Mesmo quando já não vivia com ele, nos últimos dias da vida dele, sempre que tinha tempo ia ter com ele para falarmos de ideias, da família, da política… era uma verdadeira biblioteca em pessoa.

«'A dignidade não tem preço' é daquelas coisas que faz parte do meu dia a dia»

Há alguma coisa nele que o marcou mais? 
O que mais me marcou, e acaba por ser uma das bases na minha vida, foi, na altura, ter acontecido uma coisa, e ele chamou-me e disse: «meu neto, a vida dá muitas voltas, mas há uma coisa que tens de pôr na cabeça: a dignidade não tem preço.» Essa parte de «a dignidade não tem preço» é daquelas coisas que faz parte do meu dia a dia.

Fá-lo lembrar dele?
Sim. Os problemas passam, mas a dignidade e o carácter permanecem. Isso não tem preço. Também há outra coisa que aprendi com ele, dois ou três anos antes de ele falecer. Ele sempre dizia: «as pessoas fazem muitas coisas enquanto estão vivas, mas só em morte são reconhecidas, por isso, pensa sempre em deixar o teu legado». Estas palavras fazem-me pensar, muitas vezes, no que é que quero deixar para os meus filhos, para os meus netos. Tive a sorte de ter um avô de quem realmente me orgulho.

E como é o Big Nelo pai, amigo, companheiro…? 
Tento ser o pai mais atencioso possível. Às vezes a minha vida não permite dar o 100%, que eu gostaria de dar, mas sempre que posso dou todo o amor e carinho aos meus filhos e mulher. Tenho uma menina e três rapazes, tento dar-lhes o exemplo. Os filhos de hoje não são como os do nosso tempo, em que não havia internet, etc., e isso agora ajuda na comunicação mais constante com eles. Claro que a nossa vida é tão exposta, que o que acaba por me tornar mais forte é este lado familiar. De outra maneira seria complicado.

«As minhas composições têm 80% do Nelo e 20% das outras pessoas»

Big Nelo e as suas poesias… 
Sim. A minha maneira de compor tem várias facetas. Tenho um lado autobiográfico, que acaba por ser um pouquinho mais que a minha essência do Rap. E em termos de estilo acaba por ser um pouco meio egocêntrico. Depois tem o meu lado que fala das minhas vivências, ou das vivências de outra pessoa, histórias que vou ouvindo.  Tem o meu lado religioso, que fala de Deus. As minhas composições têm 80% do Nelo e 20% das outras pessoas.

Como é que o Big Nelo continua a atrair multidões para os seus concertos? 
Talvez pela musicalidade e o exemplo que me acabei por tornar. Acho que as pessoas olham para mim como um artista que nunca, ao longo da carreira, esteve envolvido em problemas. Tenho a sorte de poder cantar para jovens, adultos, crianças… Sou dos poucos artistas da minha geração que consegue cantar desde o Gueto ao mais profundo.

Nos concertos já aconteceram coisas caricatas?
Tudo e mais alguma coisa. A primeira impressão que o artista tem perante uma fã é que vai fazer com que essa pessoa o continue a seguir. Um concerto é estar com pessoas que gostam de nós. Já saltaram, já me tiraram o chapéu, rasgaram camisola…risos.

«Angola está a atravessar um bom momento musical»

Sente que a música angolana, e a sua em particular, já é consumida por toda a diáspora? 
Acho que a música angolana acabou por ser uma realidade mais presente em Angola. Antes era 80% de música estrangeira e 20% de angolana a passar nas rádios em Angola e agora já não é assim. Angola evoluiu bastante.  Antes íamos a Cabo Verde ou a Portugal e cantávamos para a comunidade angolana e hoje já não é assim, cantamos nos concertos para 80% de público português e o resto de angolanos. Angola está a atravessar um momento bom.

A música faz parte de Angola, da sua identidade. Como olha a música, no seu país e no mundo?  
No mundo artístico em Angola falta muito. Faltam mais salas de espectáculos. Quando vamos para certos países, como Portugal, que é cerca de 14 vezes mais pequeno, tem mais salas de espectáculo que Angola. Acho que a Angola ainda está aquém. Deve-se evoluir nisto. No mundo tudo passa por investimento. Se quiseres passar para mercados maiores, como o americano, por exemplo, o investimento é grande, tudo é mais caro. Só o talento não basta.

Está prestes a fazer anos. Há um mistério em torno da sua idade… 
Faço a 26 de Novembro. Esse é o segredo. Nunca digo a idade, assim as pessoas fazem especulações. É melhor manter no segredo dos deuses (risos).

Então não vai revelar?
A questão é que a dada altura estava uma data errada no wikipédia sobre a minha idade e deu uma polémica porque diziam que eu era mais velho que o Paulo Flores. Então, deixei sempre as pessoas na incógnita. Ora bem, estou na fase dos 40 - 44… (risos)

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