Sara Fialho

Crónicas ao Amanhecer

\\ Texto Maria Amélia Pires
\\ Fotografia © PMC

Sara Fialho nasceu em Lucala a 16 de Setembro de 1955. Sonhava seguir Belas Artes, mas a vida levou-a por outros caminhos. Deu aulas de alfabetização, de Língua Portuguesa, mas o jornalismo, que surgiu quase por acaso, apaixonou-a. A imprensa, a rádio, o Ministério da Comunicação Social, a televisão, a docência de jornalismo fazem parte do seu vasto curriculum. Pelo meio, ainda houve tempo para fazer teatro, novelas, dança e desporto. Acaba de lançar o seu primeiro livro, Crónicas ao Amanhecer, mas é com alegria e com uma energia contagiante que nos revela que muitos mais projetos estão por vir.

Por que razão escolheu o jornalismo para a sua vida?
Enquanto jovem, tive uma professora de História que dizia que eu tinha o dom da retórica e que deveria seguir advocacia. O meu pai sonhava que eu pudesse seguir medicina. O que eu gostaria mesmo de ter feito era Belas Artes, mas naquela altura não havia formação nessa área em Angola. Resolvi então dar aulas. Nessas minhas andanças pelo ensino, descobriram que tenho jeito para escrever. Um primo meu convidou-me a integrar os quadros do Jornal de Angola. A partir daí, fui fazendo formações na área e agora estou a terminar o meu mestrado em Comunicação e Jornalismo.

 

No Jornal de Angola, como foi estar num mundo de homens sendo mulher?
Tive muitas responsabilidades, desde a página de reportagens à orientação de estagiários. Fundei também um jornal infantil. Mas nunca me senti nem um pouco discriminada. Foram anos muito gratificantes que contribuíram para a minha formação.

 

Continua ligada ao jornalismo?
Depois de deixar a LAC (Rádio Antena Comercial), fui para o Ministério da Comunicação Social. Nessa qualidade fui para a Alemanha, onde estive durante sete anos. Regressei e fui para o Conselho de Administração do Jornal de Angola, de onde saí em Fevereiro. Este ano fui encaminhada para a televisão, onde sou consultora. Em paralelo, continuo a escrever crónicas. Como sempre tive facilidade em criar, a LAC convidou-me para, em colaboração com um programa de rádio, escrever crónicas.

 

Crónicas ao Amanhecer é o nome do seu livro. Quer explicar-nos o nome?
As crónicas foram difundidas na LAC, através do programa Amanhã é outro dia. Eu, não sendo uma pessoa noctívaga, não gosto, porém, de me deitar cedo. Gosto de aproveitar as madrugadas para pensar, ler, escrever. Juntando estas crónicas escritas nas madrugadas, quase ao amanhecer, com o programa Amanhã é outro dia, nasce o nome do livro. São 52 crónicas. Poderiam ser muitas mais, mas o livro iria ficar demasiado caro, e nós por cá não temos muitos mecenas para patrocinar livros.

«O livro tem um lado sério, mas é um sério suave. Algumas crónicas são líricas, outras reflexivas.»

O que é que podem encontrar os leitores em Crónicas ao Amanhecer?
Eu tenho sempre muitos feedbacks do que vou escrevendo. O livro tem um lado sério, mas é um sério suave. Algumas são líricas, outras reflexivas.

 

Há alguma que lhe tenha custado escrever por abordar um tema penoso?
Há uma que tem a ver com um indivíduo que morreu na consequência de um atropelamento seguido de fuga. Isso doeu muito! Tem de haver uma maior sensibilidade para a cultura do amor ao próximo, mais humanismo, mais respeito.

«O jornalismo lá fora não vê África como um continente. Para eles está tudo na mesma panela e as pessoas têm pouco valor, valendo apenas pela riqueza que o chão dá.»

As pessoas precisam de ler mais?
Precisamos todos de ler mais, porque lendo conhecemos o mundo e interpretamos os homens.

 

Como vê o jornalismo em Angola e lá fora?
O jornalismo lá fora não vê África como um continente. Somos vários povos juntos. Para eles está tudo na mesma panela e as pessoas têm pouco valor, valendo apenas pela riqueza que o chão dá. O nosso jornalismo, não nos considerando lixo, julga que o outro lado é melhor, que o que é dito lá fora é que é verdade; que todos são bajuladores, todos são mercenários. Infelizmente, temos alguns colegas que fazem esse tipo de trabalho. Precisamos de estar mais próximos do cidadão e de termos a consciência de que, dando-lhe voz, ajudamos muito mais o governo, do que andando a espalhar boatos.

 

Que outros projetos tem em mãos? 
Tanta coisa! Gostaria muito de escrever mais livros, de trabalhar na área da agricultura. Quero trabalhar em eventos para crianças, no sentido de deixar ‘filhos’ melhores. E penso ajudar a criar os meus netos, como avó babada que sou, e gozar depois o resto dos dias que ainda me faltam.

 

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